Expressões populares do ciclo do ouro
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A mineração colonial foi cenário para a origem de famosos ditados populares. Com a chegada da mineração no Brasil Colonial, o idioma português substituiu o tupi, tornando-se, assim, a língua mais falada da colônia. Isso porque, devido a essa nova atividade econômica, aumentou o número de portugueses no território.

Graças à mineração colonial, a mineração de ouro no Brasil representou metade da produção mundial do metal nobre entre os séculos XVI e XVIII. Evidentemente, durante este período, muita gente enriqueceu; é o caso de um escravo chamado Chico Rei conseguiu comprar a própria liberdade e a de outros escravos com o ouro contrabandeado na "Mina Encardideira", em Ouro Preto, onde trabalhava.
Nota: A mina, hoje conhecida como “a mina do Chico Rei” ganhou o nome de “Encardideira” por conta do barro escuro e avermelhado que cobria os trabalhadores. Redescoberta em meados do século XX, ela se tornou uma atração turística emblemática, oferecendo aos visitantes a oportunidade de explorar centenas de metros de galerias subterrâneas e vivenciar um marco da resistência e história afro-brasileira.
Por falar em “Ouro Preto”, de onde terá surgido esse nome? Afinal, em tempos atuais “ouro preto ou negro” está mais ligada à produção petrolífera do que ao ouro propriamente dito. Acontece que o ouro da região das Minas Gerais era recoberto com uma camada de óxido de ferro, que lhe dava uma tonalidade diferente da normal, conferindo-lhe uma cor escura. Aliás, durante o ciclo da mineração e até 1823 o nome oficial da cidade era Vila Rica, que tornou-se a capital da capitania de Minas Gerais em 1720 e chegou a ser o núcleo urbano mais populoso e próspero do Brasil colonial. O nome fazia referência direta à imensa riqueza extraída na região.
A maior parte do ouro extraído no Brasil foi levado para Portugal (cerca de 900 toneladas de metal nobre) e gerou lucro até para a Inglaterra, que teria financiado a Revolução Industrial com parte das riquezas tiradas da colônia portuguesa. E não foi só lucro que a extração de ouro gerou. Com ela, vieram a instrução e a arte, representada sobretudo por Aleijadinho. Crianças de origem luso-brasileira foram enviadas para Portugal para estudar e, quando retornaram ao Brasil, traziam consigo as ideias revolucionárias e embrionárias da Revolução Francesa.

Banner da exposição intitulada «Ouro Real: Tesouros Numismáticos da Monarquia Portuguesa — Coleção Museu Casa da Moeda» que teve lugar no Museu do Tesouro Real, em Lisboa, graças a uma parceria estabelecida entre esta instituição e a Imprensa Nacional–Casa da Moeda (INCM).
O reinado de D. João V (1706–1750) coincidiu com o auge do Ciclo do Ouro no Brasil. A imensa riqueza que chegava à Lisboa, chegando a ultrapassar as 30 toneladas anuais em certas épocas, permitiu ao monarca financiar um vasto mecenato, obras monumentais—como o Convento de Mafra— cunhar moedas grandes e opulentas como a “Dobra de 24 Escudos, e consolidar o absolutismo europeu.
Acima, vídeo da Casa da Moeda de Portugal, sobre a Dobra de 24 Escudos.
A mineração colonial mexeu até com o fluxo populacional no território. Com as promessas de riqueza no Novo Mundo, começou uma imigração intensa de portugueses para o Brasil. E a população oficial da colônia saltou de 300 mil para 3 milhões de pessoas. Preocupada com esse aumento notável da população, a Coroa estipulou uma lei para controlar o fluxo migratório.
MEIA TIGELA
Expressão que hoje significa algo de baixo valor. Inclusive pode ser usado como uma ofensa para se referir à alguém de caráter duvidoso. Na época colonial e imperial o termo era empregado em referência a ração dos escravos. Diariamente eles recebiam três refeições: café da manhã, almoço e jantar. Porém, dependendo do trabalho que o escravo prestasse, ele poderia ser punido, recebendo apenas metade da sua ração (meia tigela) ou até mesmo ser privado de uma das refeições, passando fome como forma de punição.
Nas minas os escravos vivenciavam essa mesma condição. Em alguns casos eles eram incentivados com uma tigela extra de comida para se empenhar em seu trabalho em encontrar ouro ou outro minério de valor. De acordo com o que o escravo produzia, se sua performance fosse considerada baixa, era considerado preguiçoso ou incompetente, podendo ser punido com “meia tigela” ou até passar fome. Por conta disso também surgiu a expressão “negro de meia tigela” para se referir ao escravo tido como preguiçoso ou incompetente.
DAR NO COURO
Hoje essa expressão é usada em referência a um bom desempenho, algo feito com eficácia. Inclusive em algumas localidades, a expressão também possui uma conotação sexual. Na época colonial “dar no couro” era um termo usado no ofício de mineração. Em algumas minas o ouro residual era encontrado na forma de pó, podendo ficar preso nos cabelos, roupas, barbas ou na pele suada dos escravos. Assim, para que eles não o roubassem, ao saírem da mina os escravos eram esfregados com uma manta de couro não curtido, com os pelos salientes que ajudavam a “pegar” o pó de ouro e outras sujeiras dos corpos dos escravos. Depois disso, essas mantas ou tiras eram golpeadas (dar no couro) para que soltassem as partículas de ouro.
Na época da mineração, o termo também poderia designar o trabalho árduo, insalubre, perigoso e desgastante nas minas. Assim, os escravos que passavam horas e horas dentro da terra, saíam de lá tremendamente esgotados. Dessa forma, “dar no couro” seria uma gíria para se referir ao trabalho extenuante nas minas.
SANTO DO PAU OCO
Hoje, a expressão é usada para se referir a uma pessoa dissimulada ou hipócrita, que finge ser algo que não é ou que tente esconder algo que tenha feito. O termo tem origem na época da mineração, quando para cumprir suas orações diárias, os escravos levavam consigo para dentro das minas pequenas imagens de santos. Essas imagens era deixadas em oratórios improvisados pelos túneis e câmaras.
Porém, alguns escravos decidiram usá-las para o contrabando. Assim, a estátua era oca, permitindo que a cabeça ou alguma parte dela fosse removida. Dessa forma, os escravos conseguiam coletar pequenas porções de ouro e esconder dentro dessas imagens, passando despercebido aos olhares dos capatazes e supervisores, já que regularmente os escravos eram vistoriados para saber se não estariam escondendo ouro.
A prática de usar “santos do pau oco” não se restringiu aos mineradores, outros segmentos da sociedade também lançaram mão dessa prática para contrabandear o ouro, diamantes, pedras preciosas, para sonegar impostos.
LAVAR A ÉGUA
Hoje, a expressão lavar a égua refere-se a uma ação oportunista, em que alguém busca alguma vantagem indevida ou desonesta. Contudo, o termo tem sua origem no período colonial. Tratava-se de outra forma engenhosa de tentar contrabandear o ouro, escondendo pó do metal nobre nos cabelos, barba, unhas ou na roupa. Alguns escravos que conseguiam sair da mina sem serem vistoriados, pegavam esse pó e esfregavam nos pelos e crinas de cavalos ou éguas, deixando-o grudado nos animais; mais tarde pediam para seus supervisores para irem banhar os animais; durante o banho eles removiam o ouro em pó escondido nos pelos e crinas.
Apesar da curiosidade, não consistia numa prática recorrente, pois os escravos costumavam ser vistoriados ao saírem das minas e nem sempre havia cavalos ou éguas nas proximidades. Por conta disso, a prática do “santo do pau oco” era mais eficaz, já que por se tratar de um artefato religioso, os capatazes deixavam os escravos seguirem com ele.
BUCHO CHEIO ou BUCHO VAZIO
A palavra bucho em português pode se referir a barriga ou estômago, logo tais expressões dizem respeito a alguém que está alimentado ou com fome. No período colonial, nas minas, os termos tinham outro significado. As minas brasileiras nos séculos XVIII e XIX eram formadas por corredores extensos, que se alargavam à medida em que os escravos encontravam ouro, prata ou outros minérios.
Por esses corredores existiam buracos chamados de “buchos”, que derivam da palavha “buco”, que indica uma abertura, orifício ou cavidade. Nesses “bucos” ou “buchos”, os mineradores depositavam os minérios encontrados como forma de indicar que havia algum veio naquela seção. Vale lembrar que não havia trilhos e carrinhos de mina, pois esses somente chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX, numa época em que o auge da mineração aurífera havia quase terminado.
O supervisor percorria a mina conferindo cada “bucho” (buco) para ver o andamento do trabalho dos escravos. Numa seção onde muito minério fosse achado, o “bucho estaria cheio”, por sua vez, se nada fosse encontrado, o “bucho ficaria vazio”. Por sua vez, os locais com “bucho vazio” resultava em punições aos escravos, como a da “meia tigela” citada anteriormente.
O QUINTO DOS INFERNOS
A expressão nasceu durante período colonial e reflete a revolta da população contra um imposto cobrado por Portugal. A Coroa portuguesa cobrava um tributo de 20% (a quinta parte, ou “o quinto”) sobre todo o ouro e riqueza extraída no Brasil. Por ser uma cobrança altíssima e muito odiada pelos mineradores, o tributo foi apelidado pelo povo de “o quinto dos infernos”.
A Nau dos Quintos era o navio que vinha ao Brasil buscar esse imposto. Essas embarcações também eram utilizadas para transportar criminosos e exilados portugueses para a colônia.
Como o Brasil era visto pelos europeus como um local distante, desconhecido e hostil, ser mandado na “nau dos quintos” era considerado uma verdadeira condenação. Com o tempo, a junção das palavras gerou o xingamento usado para mandar alguém para um lugar muito distante, ruim ou insuportável ou seja “vá para o quinto dos infernos”.
UAI
A origem do famoso “uai” mineiro é incerta e possui algumas teorias. As duas explicações mais aceitas atualmente envolvem a língua inglesa e a cultura portuguesa.
A influência inglesa, a hipótese mais aceita: A teoria mais famosa conta que a expressão surgiu no século XIX, durante o ciclo do ouro e na construção de ferrovias. Os mineiros teriam convivido com engenheiros e encarregados ingleses e começado a repetir, por deboche ou hábito, a interjeição “why, sir?” (por que, senhor?). Com o tempo, a pronúncia teria se abrasileirado para o famoso “uai”.
Raízes portuguesas: A expressão “uai” (ou apenas “ai”) já existia em dicionários regionais de dialetos de Portugal (como nos Açores) e era usada como interjeição de exclamação e surpresa. Acredita-se que ela teria sido trazida pelos primeiros colonizadores.
O código da Inconfidência Mineira: Uma versão histórica popular sugere que “U.A.I.” funcionava como um código secreto utilizado durante as reuniões da Inconfidência Mineira. A sigla significaria “União, Amor e Independência”.
Abreviação caipira: Há também a teoria do estudioso da língua portuguesa Amadeu Amaral (a menos aceita por historiadores), que sugere que o “uai” derivou da transformação e encurtamento da palavra “olhai”.
FIM





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