Noções de Heráldica
- Mar 21
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A heráldica é uma ciência que caminha "di pari passo" com outra ciência: a numismática, estando ambas intimamente ligadas. A heráldica, tão necessária ao estudo das moedas, é também a arte de descrever os brasões de armas ou escudos. Um brasão (também designado por brasão de armas ou cota de armas), na tradição européia, é um desenho especificamente criado (com o uso de peças, esmaltes e metais) com a finalidade de identificar indivíduos, personagens e vultos históricos, famílias, clãs, cidades, regiões ou inteiras nações.

Os brasões não eram fornecidos ao acaso para as pessoas. Tiveram as suas origens em atos de coragem e bravura efetuados por grandes cavaleiros. Era uma maneira de os homenagear e às suas famílias. Com o passar do tempo, por ser considerado um ícone de status, passou a ser conferido às famílias nobres no intuito de identificar a sua importância social. Dessa forma, somente os heróis ou a nobreza possuíam tal ícone, podendo transmiti-lo a seus descendentes.
As origens da heráldica remontam aos tempos em que era imperativo distinguir os participantes das batalhas e dos torneios, assim como descrever os serviços por eles prestados, e que eram pintados nos seus escudos. No entanto, é importante notar que um brasão de armas é definido não visualmente, mas antes pela sua descrição escrita, a qual é dada numa linguagem própria – a linguagem heráldica.
Ao ato de desenhar um brasão dá-se o nome de brasonar, ato que segue uma série de regras mais ou menos restritas.
Os formatos do escudo
Existem diversos deles, variando de reino para reino, de nação para nação.

No nosso caso particular, nas representações que aparecem nas moedas brasileiras, interessam 3 tipos (amendoado, português primitivo e português clássico), com particular atenção ao terceiro deles, o português clássico.

Metais e esmaltes

As cores do brasão são denominadas genericamente esmaltes, sendo sua representação caracterizada por determinadas regras e convenções. Dividem-se tradicionalmente em Metais (Ouro e Prata), Cores (Vermelho, Azul, Verde, Negro e Púrpura) e Peles (Arminhos e Veiros).
Alguns autores fazem ainda referência a um esmalte específico, a Carnação, com a cor natural da pele humana. O ouro e a prata podem ser representados como metais, com os reflexos próprios, ou pelas cores amarela e branca, respectivamente.
Compete ao artista que ilumina o brasão decidir sobre o tom específico de cada esmalte e as sombras e outros efeitos a aplicar ao desenho, dentro das rígidas regras da composição heráldica.
Como regra essencial, não se devem sobrepor metais a metais, nem cores a cores. Por exemplo, não é de “boa heráldica” um brasão com uma cruz de prata sobre campo de ouro, ou com uma cruz vermelha sobre campo azul). Justifica-se tradicionalmente esta regra com uma explicação técnica: quando se pintava um escudo, não se empregavam tintas sobre tintas, para não correr o risco de misturas ou borrões. Outra explicação refere a necessidade de distinguir com rapidez os combatentes numa batalha ou torneio, o que impunha a utilização de cores fortes e contrastadas.
As peles podem ser sobrepostas tanto a metais como a cores.
Nas duas fileiras da figura, a representação do ouro (primeira fila) com sua cor natural ou com o amarelo, e a forma armorial com “salpico” de pontos sobre fundo branco. Mas abaixo (segunda fila), a representação para a prata.
Nota: O escudo era a forma mais eficaz de identificação. Se um cavaleiro se apresentasse apenas com as cores de sua família, poderia ser confundido com outro que usasse as mesmas tonalidades. O mesmo aconteceria com símbolos de nobreza tais como, coroas, elmos, etc., mas os desenhos dos escudos jamais seriam iguais. Eram eles algo semelhante à nossa carteira de identidade, apesar de também poderem representar uma família inteira ou, até mesmo, uma nação. O escudo contém uma ampla gama de significados, cores, figuras e sinais, definidos em sua origem mas, geralmente resultantes de alianças familiares ou territoriais e da combinação das armas de diferentes famílias ou indivíduos.
As representações das cores

A identificação perfeita de um brasão só é possível através da utilização das cores. Esse detalhe relevante sempre colocou problemas delicados quando se pretende representar um brasão em lacre ou obreia, por exemplo; para selar documentos, ou em pedra, em túmulos ou fachadas de edifícios. Ainda hoje, muitos dos problemas de identificação de alguns brasões representados nesses tipos de suporte, derivam do desconhecimento dos seus esmaltes e respectivas representações gráficas. Mesmo em numismática, muitos são os colecionadores (em particular os iniciantes) que desconhecem essas associações. É importante conhecê-las para saber, por exemplo, quando num determinado catálogo, o autor faz referência ao vermelho do escudo, que nesse particular caso é o campo determinado pelos traços verticais.
Ao lado, a partir de cima, alguns exemplos, com as respectivas representações gráficas, à direita.
VERMELHO: Também designado por sangue, sanguinho, GULES ou rubi, é representado por um campo vermelho pleno. Em armorial, vem representado por um campo de traços verticais.
AZUL: Celeste, BLAU ou safira. Representado por um campo azul pleno. Em armoriais, representa-se por um campo de traços horizontais.
VERDE: SINOPLE ou esmeralda. Representado por um campo de traços oblíquos inclinados à esquerda.
NEGRO: Preto ou SABLE. Representado por um campo de negro pleno. Quando em armoriais, representa-se por um campo quadriculado.
PÚRPURA: JACINTO ou ametista. Representado por um campo de lilás pleno. Quando em armorial, representa-se por um campo de linhas oblíquas à direita.
Com o passar dos séculos foram incluídos outros esmaltes, tais como o Orange, o Vinho, o Escarlate e o Marrom.

Diante do exposto, ao leitor é fácil compreender as relações entre traços e as cores na heráldica. Como exemplo, na figura acima temos o escudo português em sua forma clássica inciso no anverso de uma moeda de 960 Réis, à direita, e na representação armorial à esquerda, com os traços representando as cores. Nota-se assim, que o vermelho foi substituído por traços verticais e o azul dos escudetes com traços horizontais. Não sendo possível “imprimir” as cores das armas nas moedas, estas eram substituídas pela sua versão armorial com traços, como bem se pode observar no escudo da figura acima.
A divisão do escudo

O escudo é tradicionalmente dividido em nove partes ou zonas, com o objetivo de descrever a localização das peças no seu campo.
Nota: O campo do escudo pode apresentar-se inteiro, caso em que se diz, pleno, ou dividido segundo regras determinadas, em partições que servem para identificar e localizar cores, detalhes, figuras, etc..
Importante: As posições direita e esquerda do escudo são definidas em relação ao cavaleiro que se encontra por trás do escudo.

A zona superior, principal e mais nobre do escudo, é o chefe.

Por extensão, todo o terço superior do escudo é, por vezes, designado por chefe, embora a rigor o chefe seja apenas a zona central do topo do escudo.

As zonas laterais do escudo são os flancos.

O centro do escudo é o coração ou abismo. A rigor, ao descrever uma peça colocada no centro do escudo, devemos dizer que está colocada no coração se a peça for do mesmo tamanho que as restantes, ou que a peça está em abismo se for menor que as outras.

A zona inferior do escudo, oposta ao chefe, é a ponta ou contra-chefe.

Da mesma forma que sucede com o chefe, designa-se por vezes por ponta todo o terço inferior do escudo.

Finalmente, existem dois pontos especiais que merecem uma designação própria: o ponto de honra, entre o chefe e o coração, raramente usado, e o umbigo do escudo, entre o coração e a ponta, de uso ainda mais raro.


Peças internas - Honrarias
As regras (convenções) de sinais das peças internas confundem-se, com frequência, com a convenção das partições do escudo; mesmo porque algumas formas das peças são geometricamente iguais às de algumas partições.
A diferença básica entre elas é que na convenção das partições, as formas geométricas são usadas apenas para identificar e localizar (ao interior do escudo) as cores, os detalhes, as diversas figuras, etc. Na convenção das peças internas, as formas geométricas são usadas para simbolizar uma honraria obtida pelo detentor do escudo.

Nota: A Heráldica se expressa por meio de uma linguagem impregnada de referências às guerras e aos torneios de cavalaria, que constituem a sua gênese. As peças internas do escudo simbolizam honrarias obtidas pelo seu portador e as divisões básicas correspondem aos quatro grandes golpes de armas, conforme a direção: Partido, Cortado, Fendido ou Talhado.
Na figura acima, na fileira de baixo, o segundo escudo (em Cruz), da esquerda para a direita, simboliza a espada do cavaleiro, muito usado por nobres e cavaleiros nas campanhas das Cruzadas. Foi justamente essa configuração a escolhida por D. Afonso I, o primeiro rei de Portugal, em meados do século XII, ao tomar por escudo um campo de prata, centrado por uma Cruz azul (figura a seguir).

Seu filho, o rei Sancho I, por ocasião da explosão da moda ditada pela heráldica, alterou a representação da Cruz, adotando a forma com escudetes “cravejados” de besantes de prata que serviam a reforçar a superfície do escudo, fixando tecidos , peles, couro e metais. A mudança, na época, foi considerada muito oportuna e de acordo com o gosto heráldico naquele momento.
Por fim, o rei D. Afonso III, incluiu os castelos herdados de seu avô, D. Afonso VIII de Castilla, em torno a 1250. Para tanto, alterou a forma primitiva para aquela clássica, usada ainda hoje. Durante a ocupação de Ceuta, o escudo português terminou por dar origem àquele da cidade autônoma, hoje pertencente ao território espanhol.

A diferença do escudo de Ceuta para aquele português, é estabelecida em dois elementos do escudo:
1. Enquanto o escudo de Ceuta carrega uma coroa de marquês, o escudo português ostentava uma coroa real, própria das marcas e hoje abolida.
2. A posição dos castelos da bordadura. Nas armas de Portugal, os castelos estão dispostos de forma que a ponta do escudo esteja vazia, não contendo castelos. Já no escudo da cidade autônoma de Ceuta, os castelos estão dispostos em ponta e flancos, deixando o chefe vazio. Tal diferença foi estabelecida na confecção do escudo, não sendo acidental como defendem alguns autores.

A Esfera Armilar: De cor amarela, é a representação estilizada do instrumento de navegação de mesmo nome. É visualizada em perspectiva, com um hemi-meridiano nodal virado para o observador e um pouco acima deste. É constituída por quatro aros dispostos como círculos máximos de uma mesma esfera, três dos quais sobre planos formando ângulos de 90° e um quarto. Um mais largo, em posição oblíqua, e dois paralelos, tangentes ao aro mais largo. A estrutura se apresenta com o eixo de interseção de três dos aros maiores perpendiculares ao eixo, sendo os aros arrematados por virolas salientes e proporcionadamente mais estreitas. Os aros representam, respectivamente, dois meridianos (nodal e zenito-apical), o Equador, e a Eclíptica, estando posicionados buscando harmonia gráfica e não correção astronômica.
O Escudo

Sobre a esfera armilar, um escudo com as armas nacionais, de formato em ponta redonda, construído a partir de um semi‑cículo e de um retângulo, sendo sua a altura no eixo máximo sete décimos do diâmetro da esfera, e a largura seis décimos deste. O escudo deverá estar centrado verticalmente sobre a esfera.
O Escudo é constituído por uma área interior branca e uma exterior vermelha, esta limitada paralelamente ao limite do escudo. Na parte vermelha, sete castelos amarelos, e na branca cinco pequenos escudos (escudetes) azuis, dispostos em cruz (1+3+1); cada um contém cinco discos brancos, denominados besantes, dispostos em “X” (2+1+2).
O ordenamento heráldico do escudo é: “de prata, cinco escudetes, em azul (blau), postos em cruz, cada um carregado com cinco besantes, de prata, postos em aspa; bordadura em vermelho (goles), carregada com sete castelos, de ouro, dos quais três em chefe”.
Os Escudete e Besantes - No que que diz respeito a estes elementos (escudetes e os seus respectivos besantes), não é passível de alteração de sua cor, posição, e formato básico. Não obstante é aceitável alguma variação no que toca aos tamanhos e às proporções.
As dimensões relativas da bordadura e da parte branca do escudo deverão ser proporcionais aos objetos que alojam, partindo do princípio heráldico que a largura de uma bordadura vazia é de um sétimo da altura do escudo, alargando-se a fim de albergar cargas.
O Castelo

Os castelos, amarelos, são em número de sete, estando dois em cada um dos cantos do escudo, um centrado na parte superior, dois nos pontos médios de cada quadrante da parte curva (estes adequadamente dispostos ao redor do centro a 45°), e mais dois em ambos os lados do escudo.
Em hipótese alguma devem os castelos tocar ou ultrapassar os limites da bordadura vermelha. Os castelos são necessariamente constituídos por um edifício base, com porta, sobre o qual se erguem três torres ameiadas — a sua substituição por uma única torre é incorreta. A porta deve ser igualmente amarela (nunca aberta).
É aceitável, nos castelos, a variação na presença de janelas, no estilo da porta, na visibilidade da alvenaria, no número de ameias, no tamanho relativo das torres, no estilo dos remates, e na presença de ameias arrematando o edifício base.
A curvatura dos aros que representam os Trópicos de Câncer e Capricórnio deverá ser tal que estes, no seu ponto de inflexão, sejam tangentes, respectivamente, ao ponto médio do bordo superior do escudo e à sua ponta. O aro que representa o Equador deverá apresentar curvatura proporcional à dos Trópicos.



A Heráldica na Numismática Brasileira
O estudo analítico das peças numismáticas brasileiras, no que concerne ao seu simbolismo, ainda está por se fazer de modo adequado.
A Heráldica deverá facilitar esse trabalho, concorrendo para a identificação dos subsídios iconográficos que nele estejam envolvidos.
Embora somente no século XIII houvessem sido disciplinadas as suas linhas-mestras, a ciência dos brasões é tão antiga quanto o orgulho humano. Origina-se nos distintivos e símbolos primitivos; a loba de Roma, a coruja de Atenas e o escaravelho do Egito, para não irmos além, são bem familiares aos estudantes de História. Os poemas gregos descrevem as armas e os escudos de chefes guerreiros. Da representação de tais figuras, consoante a opinião de Gustavo Barroso, nasceu a Heráldica.
Evidentemente, não trataremos nesse texto o estudo da riquíssima linguagem simbólica da nobreza, nem dos arautos com as suas vestes coloridas. Esperamos, contudo, que desperte a atenção dos autênticos colecionadores de moedas metálicas e fiduciárias. É necessário ter-se o conhecimento dos símbolos e das inscrições nelas gravadas como expressões histórico-cronológicas para interpretá-las em exegese esclarecida.
A influência da Heráldica na numária nacional tem início no reinado do belicoso rei D. Pedro II de Portugal (1683-1707). O Brasil, no seu alvorecer, não possuía sistema monetário, permutando-se os produtos da terra com ferramentas, contas de vidro e outras bugigangas. De 1532 a 1694, no território corriam moedas portuguesas, holandesas, obsidionais, francesas, italianas e carimbos coroados, dentro das raias de influências locais. Da mesma forma, ouro em pó e em barra, pano de algodão no Maranhão ― Dinheiro da terra, na expressão do padre Antônio Vieira ― e os “cauri” ou “zimbos” utilizados na troca de escravos africanos na Bahia. Em 1695, com a fundação provisória da Casa da Moeda da Bahia, entraram em curso as moedas sonantes, de padrão fraco, fabricadas no próprio país.
Desde o fim do século XVII, começaram as moedas brasileiras a trazer símbolos representativos de nossas sucessivas individualidades políticas: Colônia, Reino Unido, Império e República.
A Cruz da Ordem de Cristo, vermelha e branca, estampada no velame das caravelas cabralinas, foi a primeira bandeira projetada no solo pátrio.
A Esfera Armilar, de ouro em campo azul, divisa pessoal de D. Manuel, em cuja administração foi descoberta a Vera-Cruz, veio através do Principado (1645). Posteriormente, quando o Brasil se elevou à categoria de Reino Unido, as armas, na conformidade do Alvará de 13 de Maio de 1816, ficaram constituídas do escudo real português no centro da Esfera Armilar de ouro, forrada de azul e circundada por dois ramos de louro e carvalho, com coroa sobreposta. Duraram assim até 25 de Agosto de 1825, quando Portugal veio a reconhecer a Independência do Brasil. As armas imperiais se compuseram de um escudo verde, sobre o qual reaparecia a Esfera Armilar de ouro, atravessada pela Cruz de Cristo e circundada por uma orla azul com dezenove estrelas de prata, representativas das províncias.
A República, no propósito natural de modificar, introduziu em suas armas a estrela flamejante e a constelação do Cruzeiro do Sul, tal qual esta nos aparece no céu, mas sem a constante obediência às regras heráldicas.
A Cruz, símbolo religioso, figura nos brasões-de-armas e especialmente na ornamentação das coroas. A Cruz de Cristo, duas hastes iguais, cruzadas perpendicularmente ao meio, com as quatro pontas terminadas por pequenos trapézios isósceles, base maior para fora com a base menor de comprimento igual a das laterais; a de São Jorge (Cruz grega vazada), em moedas de ouro e na de 400 réis de prata de 1900. No tempo das Cruzadas, as cruzes inundaram a Heráldica, em forma de tau (T), potentadas, floreadas, patriarcais, aguçadas, boleadas, espatuladas, ponteadas, russas, latinas, pontificiais, páteas, em X, na mais bela de todas, a de Santo André, que lembra o suplício do apóstolo da Igreja, a de Lorena, bem como as cruzes características das antigas ordens da cavalaria: Templária, de Malta (potentada), Teutônica, de Avis, de Alcântara, de Santiago e de Cristo.
A Esfera Armilar, porém, que aparece em cerca de 60% do vastíssimo corpus nummorum nacional, reclama uma explanação maior. Isto porque se tem pouca noção de seu real significado, julgando-se que representa o globo terrestre. Destinava-se apenas a estabelecer a posição dos astros, sendo um instrumento usado desde a remota antiguidade. Formada por dez arcos ou armilas, fixos ou móveis, abrangendo seis grandes círculos (equador, meridiano, horizonte, zodíaco e dois coluros) e quatro pequenos círculos (dois trópicos e dois círculos polares), subentendia-se a Terra no centro.
As duas figuras acima facilitam a compreensão: a 1ª, o instrumento da Esfera Armilar, estilizado com um coluro; a 2ª, reverso da moeda de prata com a legenda “SUBQ SIGN NATA STAB” (sob o sinal que nasceu, permanecerá), com dois coluros ou sejam, cinco linhas horizontais e cinco verticais dentro da área da esfera.
Horizontalmente: Equador (A―A) que divide a esfera em dois hemisférios iguais; abaixo e acima dele, os trópicos (B―B) e os círculos polares (C―C), erradamente denominados “zonas” pelos colecionadores, quase sempre alheios às noções de Astronomia. O horizonte não é representado na gravura, dada a posição vertical em que é desenhada a esfera, quando no instrumento aparece inclinada. Confunde-se, pois, com o Equador; ao lado, seis círculos.
Verticalmente: meridiano (D―D), eixo da esfera, coluro (E), círculo imaginário, perpendicular ao Equador, que o divide em quatro partes iguais. O outro coluro é o próprio contorno da esfera, o qual, aliás, figura visivelmente na moeda (vide gravura da página anterior) e na quase totalidade da coletânea nacional. Os coluros passam pelos solstícios (elíptica tangente aos trópicos) e equinócios (quando ela corta o Equador), num total de três círculos.
Inclinadamente: zodíaco e a elíptica, ambos com a inclinação aproximada de 23,5 graus em relação ao Equador. A elíptica e a órbita aparente do sol em volta da Terra e o zodíaco (F―F) contém doze constelações que o sol parece percorrer no espaço de um ano.
Nota: Nenhuma moeda brasileira traz os signos do zodíaco.
A gravura da Esfera Armilar nas moedas de ouro cunhadas no Brasil só apareceu no período de 1818 a 1822 (Reino Unido) e daí até 1889, mas em tamanho reduzido; todas com dois coluros. A partir da República, os símbolos passaram a ser outros.
A gravura nas moedas de prata traz igualmente dois coluros e, excepcionalmente, um coluro em peças cunhadas nos reinados de D. Pedro II e D. João V, compreendendo o período que vai de 1695 a 1750, e D. José (de 1751 a 1755 e nos anos de 1757 e 1758), com as letras R e B e parte da série J.
As moedas de níquel (exceção feita ao 200 réis Vicentina, com a Terra no meio), as de bronze e os ensaios monetários e as provas de cunho que observamos, apresentam dois coluros.
A Esfera Armilar, desta forma, está esculpida nas moedas em ponto essencial, sem uniformidade, mais exatamente em 89% com dois coluros e em 11% com um único coluro (o correto), de todas as Casas de Moedas do Brasil. Do reinado de D. Maria I e D. Pedro III até a República aparece sistematicamente a Esfera Armilar com dois coluros, naturalmente por determinações governamentais expressas. A Casa da Moeda de Lisboa chega ao ponto de, na mesma data e na mesma espécie de metal, gravar dos dois modos (pratas de 1749). As moedas da série J tem em sua generalidade um coluro e somente poucas delas apresentam-se com dois coluros.
É de reconhecer-se que as moedas de cobre guardam uma certa similitude com a primitiva divisa de D. Manuel. Nas moedas de prata, porém, a Esfera Armilar é colocada sobre a Cruz de Cristo, ficando à vista somente as pontas do braço da mesma cruz.
As imperfeições no fabrico das nossas peças foram mais acentuadas em épocas anteriores a 1834, por causa dos processos rudimentares sujeitos a movimentos involuntários do balancim da prensa. Os cunhos abertos à mão ― e não modelados por uma matriz ― encheram de curiosíssimas variantes e aspectos morfológicos de todos os matizes, a Numismática brasileira, quanto às inscrições, legendas, módulos e até datas. Haja vista o 320 réis de 1699, emendado para 1700 e depois para 1701. Nesses casos, o pé e o bico da esfera são ornamentados da maneira mais tosca à mais artística.
O zodíaco (e sua sombra) geralmente não tem a indicação dos trinta e dois e meio graus em relação ao Equador. Os círculos verticais da esfera são representados ora por linha reta, ora por linha curva. De tais divergências nasceram, no passado, as classificações erradas, tais como: supostas “zonas retas”, curvas ou invertidas; zodíacos largos, estreitos, granulados, pautados, lisos, retos ou curvos; esferas com ou sem eixo, macutas com ou sem zodíaco e imperfeições na apuração do peso e do diâmetro. Na própria peça da Coroação, a mais valiosa da nossa numária, de tão mal desenhada a Cruz, mais se assemelha a um terceiro coluro, além dos dois nela presentes. As armilas não poderiam constituir uma exceção nesse transbordamento de livre arbítrio (até justificável, por assim dizer, já que não existiam regras de como proceder) dos gravadores das nossas moedas de outrora.
Evidentemente tudo isso resultava da ausência de normas reguladoras nas repartições competentes. A Metrópole, em suas leis e provisões, perdeu-se nos zelos com o toque e o peso das peças a serem cunhadas. A questão do desenho era considerada secundária. No próprio Decreto de 8 de Março de 1694, que determinou a abertura da Casa da Moeda da Bahia, o texto se refere simplesmente ao “maior valor” e “cunho diferente” sem dar a devida importância às regras de abertura dois cunhos. A Comissão organizada, sob a direção do próprio Governador da Bahia, mandou fazer ensaios, referidos nos “Primeiros Registros das Casas de Moedas do Brasil “ e de cuja existência a distinta numismata Yolanda Marcondes Portugal, do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, apresenta argumentos incontestáveis.
O documento, que consta do clássico Catálogo da Coleção Numismática de Augusto de Souza Lobo (1908, página 23) ― embora determinando o rei que “esta moeda de nova fábrica terá de uma parte o meu retrato e nome, como usaram alguns dos Reis antigos deste Reino, e praticam presentemente quese todos os Príncipes da Europa e da outra parte as armas Reais com a letra: In Hoc Signo Vinces.” ― delegava em seguida competência ao “Conselho de minha Fazenda” para reexaminar a matéria, independentemente de nova Lei”. Daí, porém, a entregar-se o arranjo dos cunhos à vontade dos abridores era um passo livre à frente, fora do pensamento e do controle do legislador.
Os abridores, via de regra, eram joalheiros improvisados e poucos com habilidade profissional. Infelizmente não integravam o corpo dos moedeiros privilegiados da Corte, que se ajoelhavam por ocasião da posse, com um capacete na cabeça, compromissados mediante cutiladas simbólicas de espadim e abençoados pela respectiva padroeira, Nossa Senhora de Santana. Um estudo mais aprofundado da legislação, em face das cartas, editais, provisões e outrso documentos adormecidos nos arquivos de tempos remotos, poderia trazer proveitosa luz à matéria tão interessante, evitando-se conclusões na base de raciocínios puramente ortodoxos.
Livros especializados, inclusive os de Genealogia e Medalhística, apresentam a Esfera Armilar com dosi coluros, mas não porque os confundiram com os meridianos, mas por motivos outros que não chegaram até nós. Talvez por preferirem a Esfera Armilar planificada sem ofensa à Heráldica, com os círculos representados por linhas retas. Nada impediria, porém, o desenho do coluro, que representaria a Esfera Armilar manuelina de natural inclinada, coincidindo o segundo coluro com o contorno. Tal instrumento foi esquematizado por Kurt Prober em seu “Manual de Numismática”, livro que consideramos de excepcional valor na literatura numismática.
O brasão atual da cidade do Rio de Janeiro também só tem um coluro visível, desenhado com uma única arbitrariedade heráldica na inclinação exagerada de quarenta e cinco graus do zodíaco sobre o Equador. A seu lado, o selo comemorativo, 1965, não exibe o barreta frígio, símbolo do regime republicano, nem os elementos externos; o escudo, ao invés de alaranjado, é azul, cor da lealdade; a Esfera Armilar e as setas, que supliciaram a São Sebastião, estão em branco, quando na verdade são áureas.
Cremos que as duas alternativas tenham apoio em hermenêutica realística. É injustificável, contudo, a falta de uniformidade nas moedas que circulavam pro todo o mundo, em consonância com as suas legendas. A única peça que reproduz o globo terrestre é o ensaio cúprico de 1811 (figura abaixo).

O mundo normalmente aparece nas moedas através do crucífero, isto é, um pequeno círculo na parte superior, sustentando a Cruz.
As convenções heráldicas constituem tema relevante em íntima ligação com a Numismática. A codificação consumada há sete séculos, por um padre jesuíta, no tocante as regras universais para os brasões, determinou a maneira de representação simbólica dos esmaltes por traços, quando os escudos gravados na pedra, no metal ou em madeira, não pudessem ser coloridos. De acordo com essa representação, apresentamos o esquema a seguir, convindo assinalar que, independentemente dos metais (1 e 2), figuram os esmaltes de números 3, 4, 5, 6 e 8 nas peças brasileiras.

Nota: O fundo é sempre branco. A tonalidade bege é somente para exaltar o escudo.
A prata, em inglês, francês e alemão é silver, argent (fond uni) e silber, respectivamente; o ouro é gold, or (pointiller) e gold, representando o primeiro a inocência; o segundo, a riqueza; a fé e a autoridade. A cor laranja ou alaranjado é de uso restrito, limitando-se aos brasões ingleses e holandeses. As peles abrangem o arminho, contra-arminhos, veiros e contraveiros, não abjetos da Numismática.
As formas dos escudos e suas divisões são excelentes elementos para leitura e interpretação dos símbolos dentro deles. Os brasões-de arma constituem-se do escudo (arma defensiva), e que diz respeito à família, e do elmo )capacete), que repousa sobre o chefe do escudo, indicando, pela posição e número de grades da viseira, o grau da nobreza. O timbre sempre posto na cimeira do elmo, indicando ambos o cavalleiro nos combates do passado. Os escudos comprendem o chefe, parte superior correspondente a um terço da dimensão total no sentido horizontal; a ponta, parte inferior nas mesmas condições; a destra que corresponde ao flanco direito (à esquerda do observador); a sinestra ou sinistra, à esquerda; o abismo ou coração ao centro; o campo, espaço inferior, de modo geral o fundo em que se pintam as peças. As partições do escudo, em linhas retas, representam os grandes golpes vibrados com a espada pesada, com as duas mãos; partido (linha vertical que vai do chefe à ponta), cortado (linha horizontal ao meio), fendido (diagonal da destra à sinistra) e talhado (em sentido contrário). A posição dos escudos é ao natural, isto é, com a ponta em vertical. Somente na moeda da colonização, prata de 2.000 réis (D. João III), o escudo está na posição baloon, isto é, inclinado ou descaído sobre a direita.
A moedagem brasileira usou as seguintes formas em seus escudos:

1. Escudo Francês ou Sanítico: Retangular com bico regular à ponta, ângulos superiores retos (século XIX), embora se encontrem agudos e projetados para fora. É o mais em voga nas moedas brasileiras. Empregado nas moedas de ouro datadas de 1695 a 1727, 1749, 1751 a 1805, 1808 a 1833; prata, de 1695 a 1758, 1768 a 1833, 2$000 réis de 1932 colonização (brasão); cobre, de 1693 a 1699 (PPPP), 1722, 1818 a 1823 (Reino Unido), Carimbos Primitivos do Império e de 1823 a 1833 (valor em algarismos arábicos). Século XV e XVI: escudos boleados de bico.
2. Escudo Inglês: A forma clássica é modificada pelas saliências angulares das extremidades do chefe ou parte superior. Moedas: ouro, de 1849 a 1889; prata, de 1849 a 1867. Escudos quase quadrados: 1851 e 1852 ouro (2° tipo), anotados por Cândido de Azevedo Coutinho em “Apreciação do Medallheiro da Casa da Moeda”, publicado em 1862.
3. Escudo suíço: De formas curvilíneas regulares com o chefe em bico como a ponta. Moedas: de 1833 a 1849 (série dos cruzados e as do segundo sistema de ouro).
4. Italiano ou barroco (itálico): Chefe ornamentado de volutas (enfeites em espirais) em linhas curvas (século XVIII). Figura agregada à carleta ou tarja (cartouche, dos franceses). Há variedades de desenhos. No governo de D. João VI, denominados vulgarmente “peças de jarra”, pela aparência que têm com tais objetos. Moedas: ouro, de 1731 a 1805.
5. Escudo oval, ovalado ou ovado: De forma elíptica, com cercadura. Seus ornamentos barrocos são diferentes dos do escudo anterior. Moedas: ouro, de 1727 a 1731 e de 1805 a 1817, inclusive a série especial. Igualmente nas contramarcas de 960 réis de Minas e quiçá de Mato Grosso.
6. Escudo polônio (polaco): Com curvas ornamentais salientes no chefe (século XVIII). A parte inferior é bojuda. As moedas de prata, de 1867 a 1889; níquel de 1871 a 1889, e bronze, de 1868 a 1880, foram aí classificadas em virtude de serem as partes inferiores arredondadas, enquanto o estilo, no italiano, elas são mais estreitas. Falta, porém, a reentrância das partes laterais.
Nota: Macutas - Moedas de cobre, cunhadas para Angola, de 1814 a 1816, com forma diferente do escudo polônio (a curvatura em cima é côncava). Seu escudo, estilizado ou com inspirações heráldicas, incluir-se-á ou não como tipo definido. Veiga Coimbra designa este escudo como elíptico simples, sem ramagens.
7. Escudos com reentrâncias e saliências, estilos misturados: A enciclopédia Storico-Nobilitare italiana (1931), os conceitua como “sagamati”, ou seja emoldurados. As cédulas (moeda fiduciária) do Império, fabricadas nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Itália e na França, em que se estilizam por demais os escudos, talvez se enquadrem nesta rubrica.
8. Estilizados, barrocos, elípticos de formas excêntricas: Aparecem em moedas de vários países, como se pode verificar facilmente. São os mesmos italianos. Souza Lobo denomina-os ornamentais.
9. Escudo português, espanhol ou flamengo: Retangular, com a parte inferior arredondada. Moedas: 1$000 réis de prata, vicentina, no brasão em que se configura (em correspondência com o selo de 200 réis de 1932, violeta). Carimbos coroados de prata e de ouro. Escudo preferido da selagem postal do Brasil.
10. Forma clássica ou comum no escudo da Heráldica: Apresenta o campo quase retangular, o que facilita sobremaneira o desenho. Assemelha-se muito ao francês, sendo mais encorpado.
Em resumo, de 1695 a 1822, o Brasil adotou nas suas moedas os escudos português, francês, italiano e oval. No Império, o suiço, o polônio e o inglês. O escudo francês aparece em todos os reinados.
Além desses escudos, em enciclopédias e dicionários encontramos outrso em forma de amêndoa, pião, triângulo, redondo (da milícia romana), quadrado (torneio), ovalado ou eclesiástico (usado também pelas rainhas), lisonja (senhoras), lanceolado, espigão, boleado, testa de cavalo, escudo primitivo, alemão e africano.
Nas armas, a coroa real, depois da denominação espanhola, era sempre fechada, sem discrepância. A coroa é sempre de ouro e põe-se geralmente sobre o elmo ou acima do chefe do escudo. Os diademas são os mesmos coronéis da Heráldica: as pedrarias são representadas por losangos, retângulos, cruzes, pontos. A ornamentação indica o título nobiliárquico.
FIM




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