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A Peça da Coroação

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Updated: 2 days ago

Desde os primórdios da atual Turquia a moeda tem funcionado como um eficaz instrumento de propaganda, um importante veículo de comunicação de massa. Quando surgiu na Lídia por volta do VII século a.C., sua função principal deveria ser a de facilitar os processos de troca. Todavia, em pouco tempo os detentores do poder compreenderam a sua inegável força comunicativa e propagandística.



Hoje é comum vermos o busto de um soberano de Estado inciso em moedas como marca de um poder constituído. No Brasil, por exemplo, o primeiro a retratar-se nas moedas foi D. João V, gravando seu busto no anverso da série das dobras. A partir de então, foi seguido por seus sucessores que passaram a estampar nas moedas de ouro sua própria imagem. A partir do Império, essa conduta se estendeu à prata e a outros metais como o bronze.

Mas, afinal de contas, quem primeiro teve a iniciativa de gravar sua própria imagem em uma das faces de uma moeda? Teria sido Alexandre, o grande?

Na antiguidade, as notícias não corriam com a velocidade dos tempos atuais. Não existiam jornais, revistas e muito menos os notáveis recursos tecnológicos da informática. As moedas, por assim, dizer, eram os arautos dos acontecimentos importantes do mundo antigo. Os macedônicos que vissem, por exemplo, sobre a face de uma moeda (figura a seguir), a imagem de Hércules portando uma pele de leão cobrindo a cabeça, e na outra face a imagem de Zeus sentado, carregando um cetro na mão esquerda e uma águia na direita, acompanhado da legenda ALEXANDROU, com certeza diriam: "Vejam, temos um novo rei!"


Tetradracma de Alexandre III, 336 a.C.


Apesar da imagem sugerir que Alexandre III da Macedônia havia subido ao trono, no lugar de seu pai assassinado, Filipe II, o busto que se vê na moeda não retrata Alexandre e sim a "sua imagem" divinizada através do busto de Hércules. Assim, apesar da imagem traduzir uma forte mensagem do poder investido pelo grande condottiero, não podemos dizer que Alexandre III foi o primeiro a retratar-se em uma moeda.

Comunicar à população a ascensão ao trono de um novo soberano que acabara de assumir o poder ou o triunfo em uma importante batalha, ou recordar o passado como faziam os romanos em moedas como a da figura a seguir, retratando a cena do Rapto das Sabinas, ao longo dos séculos e por muito tempo, foi uma importante função das moedas, documentos históricos de uma época que nos contam muito da vida e costumes de uma inteira civilização.

Em pouco tempo a moeda assumiu a função de instrumento de propaganda política e de culto às personalidades. Muitas famílias romanas lançaram mão dessa forma de ostentação carregada de vaidade, retratando seus componentes em diversas moedas privadas. Apesar de ser uma prática antiga, não chegavam a constituir uma expressão verdadeira e própria de um poder constituído. Isso só seria possível quando um soberano, um ditador ou um usurpador toma-se para sí a condição de reinante, estampando seu próprio vulto nas moedas oficiais.


ALIA IACTA EST

Em "De Vita Cesarum", Svetonio nos diz que foi essa a frase pronunciada por Júlio César ao atravessar com seu exército, o Rubicão, na noite de 10 de Janeiro de 49 a.C., violando aberta e publicamente a lei que proibia o ingresso armado no perímetro de Roma, Júlio César era consciente de seu poder político e sabia com certeza a medida do seu gesto que nada tinha de impulsivo. Destarte, ao violar a lei ingressando no perímetro romano armado, Júlio César conduziu os romanos à sua segunda guerra civil tendo combatendo contra as forças de Pompeu, seu aliado no passado juntamente com Crasso, no primeiro Triunvirato.  Após quatro anos de intensa batalha, decisiva para o destino de Roma, o homem considerado um grande estadista por uns, um genocida, satírico e homicida intencional por outros,  consagra-se vencedor.

Julio César foi um dos primeiros a compreender o potencial das moedas como meio de comunicação e propaganda política. Foi o primeiro romano vivente, depois de mais de 400 anos de República, que ousou estampar sua figura em vestes de um Rei, retratando-se com seu busto de perfil, usando a coroa imperial de louros, ousadia que viria a contribuir para a conspiração que culminou com o seu assassinato.

A partir de então, o ANVERSO das moedas passou a se configurar como exclusivo apanágio da monarquia e de todos aqueles que, de forma democrática ou com o uso da força, assumiram o poder de uma inteira nação.

Os incisores e artistas romanos eram muito habilidosos em retratar o vulto de Júlio César à perfeição. Foi próprio a ordenar que fosse refeito o cunho de uma moeda por 3 vezes consecutivas, exigindo que os sinais do tempo que o faziam parecer mais velho, fossem retocados, dando-lhe aspecto mais juvenil.



Imagem: Sexto Pompeu, como Imperador (44-36 a.C.). AV aureus (20 mm, 7,95 g, 6h). Sicília, 42-40 a.C. ou 37/6 a.C. Anverso: MAG • PIVS •-IMP • ITER, cabeça descoberta de Sexto Pompeu à direita; tudo dentro de coroa de carvalho. Reverso: PRAEF / CLAS • ET • ORAE / MARIT • EX • S • C (AE e MAR ligate), cabeças de Pompeius Magnus à esquerda, e Gnaeus Pompeius à direita, frente a frente; lituus à direita no campo esquerdo, tripé no campo direito.

Sexto Pompeu iniciou o uso de imagens dinásticas na cunhagem romana, em resposta ao declínio das tradições em favor de personagens grandiosos e populares entre as massas. As carreiras dos recentes senhores da guerra Caio Mário, Lúcio Cornélio Sula Félix, Marco Licínio Crasso, Júlio César e do próprio pai de Sexto, Pompeu Magno, foram enormemente beneficiadas pela força de seu carisma. Em 42 a.C., quando os áureos com retratos foram cunhados pela primeira vez, Marco Antônio, Otaviano, Marco Emílio Lépido, Marco Júnio Bruto, Caio Cássio Longino e Sexto Pompeu lutavam pela supremacia. Esta emissão estabeleceu um precedente excepcionalmente importante, com Sexto homenageando sua família e promovendo sua linhagem. Ele e seu irmão Cneu retrataram seu falecido pai em denários já em 45-44 a.C., mas nesta série, Sexto vai além, retratando a si mesmo com seu irmão e pai falecidos, relembrando a todos aqueles que serviram à causa pompeiana. Este magnífico áureo exibe o único retrato de Sexto Pompeu em moeda e está envolto por uma coroa de carvalho, tradicionalmente uma condecoração para aqueles que salvaram a vida de um cidadão romano. Isso pode ter sido mais propaganda, simbolizando as vidas que ele salvou ao acolher refugiados políticos que escaparam das proscrições de Cesareia. O reverso exibe os retratos de Pompeu Magno e Cneu Pompeu, ladeados pelos instrumentos dos sacerdócios aos quais foram designados.



Imagem: EID MAR - “Nada ressoa tão profundamente com os conhecedores da cunhagem romana antiga quanto o dramático tipo EID MAR cunhado por Brutus em 44 a.C.. O estudo de Herbert A. Cahn, de 1989, intitulado Eidibus Martiis, registrou 56 exemplares em prata e apenas 2 em ouro.” No entanto, acredita-se que hoje existam pelo menos o dobro desse número de exemplares em prata, enquanto os de ouro permanecem da mais alta raridade.

Cunhar uma moeda para comemorar um assassinato é tão ousado e brutal quanto o próprio ato, perpetrado por um grande grupo de senadores romanos que conspiravam para pôr fim à ânsia de César por uma ditadura descontrolada. Os elementos do desenho da moeda contam a história completa do ponto de vista de Bruto e Cássio. As duas adagas representam os dois personagens. O píleo entre elas é um barrete frígio, símbolo da liberdade e da emancipação. A legenda EID MAR é uma abreviação de EIDIBVS MARRTIIS, ou os Idos de Março.

Marco Júnio Bruto, o mais conhecido entre os assassinos de Júlio César, fez bater essa moeda que pode ser considerada um autêntico spot publicitário. A mensagem, tanto no seu denário quanto neste áureo, é transparente e fortemente comunicativa, e diz: “Eu, Bruto, liberei vocês romanos do ditador, assassinando-o com a minha espada, no dia dos idos de março.”

De fato, sobre o anverso do denário aparece o busto de Bruto com seu nome e no reverso, o barrete símbolo da liberdade, colocado entre duas adagas onde aparece a escritura EID MAR, que indica “os idos de Março” do calendário solar juliano, dia 15 do mês, do ano de 44 a.C., data do regicídio.


Na antiguidade, os meios de comunicação como hoje os entendemos, inexistiam. As notícias se propagavam, em sua grande parte, através do disse-me-disse do dia-a-dia da população; Os comerciantes que viajavam, muitas vezes em localidades distantes, eram os autênticos disseminadores da palavra, levando e trazendo informações além dos confins do mundo civilizado.

A moeda era de fato o único e verdadeiro instrumento de mídia em condições de comunicar à distância, enviando mensagens a todos os povos. Nos dias de hoje, a maioria (a quase totalidade da população) perdeu completamente o hábito de observar atentamente a mensagem trazida até nós por uma moeda, mas na antiguidade estes pequenos mas potentes instrumentos da documentação história dos povos, eram observadas com a devida atenção, tendo um valor talvez bem maior do que a expressão do seu próprio valor nominal.

A moeda foi para os antigos o que hoje entendemos como meio de comunicação eficaz. Criou a possibilidade de imprimir sobre uma das suas faces, imagens, símbolos, retratos e mensagens; A circulação e, consequentemente, a difusão da moeda, mesmo em zonas remotas e distantes do local onde foram batidas, mantinham “viva” a mensagem que carregavam. Enfim, sua função de servir como medida de valor e instrumento de pagamento de bens, possibilitou que vagassem de mão em mão, levando aos mais longínquos rincões as mensagens que ainda hoje ecoam no tempo e chegam até nós, testemunhos da história da humanidade.


HABEMUS REGEM BRASILIENSEM

A história do Brasil do século XIX, foi dramaticamente moldada por eventos na Europa. A ascensão de Napoleão Bonaparte ao trono da França e sua ulterior conquista de grande parte da Europa continental, incluindo a Península Ibérica, foi um desses eventos, certamente o mais importante. Enquanto as forças de Napoleão marchavam sobre Portugal, na época um fiel aliado da Grã-Bretanha, a corte real iria se refugiar no novo mundo, mais precisamente no Rio de Janeiro, em 1808.

Durante sua estada de treze anos na Colônia, Dom João trouxe para a cidade diversas instituições da predominante cultura européia: uma gráfica, a ópera, academias militares e muito mais. Tanto gostou da experiência que, mesmo após a derrota e exílio de Napoleão, o monarca português não pretendia fazer retorno à corte lisboeta, declarando sentir-se mais confortável e à vontade, no Brasil.

Ao escolher uma Colônia distante como sede do poder, D. João, naquela época príncipe regente, contrariou (na verdade, irritou) outros países europeus. Sua solução foi elevar o Brasil à categoria de monarquia e tornar-se governante de fato de duas nações. Contudo, isso não impediu que seus súditos e aliados britânicos continuassem a reclamar por seu retorno. Assim sendo, em 1821 D. João VI deixou seu filho, o príncipe D. Pedro, como regente no Brasil e regressou para a Europa.





Imagens: Moedas brasileiras retratando alguns monarcas que fizeram a história do nosso país.



A COROAÇÃO DE D. PEDRO, I° DO BRASIL, IV° DE PORTUGAL

A independência do Brasil de Portugal foi um evento atípico, se comparado aos eventos que antecederam à independência de outros países. Não houve guerra, nem ato do Congresso, sequer houve uma tomada de governo. Com D. João VI de volta a Lisboa, as cortes portuguesas tentaram restaurar o Brasil ao status de Colônia, contrariando o jovem regente que, em 9 de Janeiro de 1822, anunciou oficial e publicamente a sua recusa em obedecer à ordem do Parlamento para regressar a Portugal, data atualmente conhecida como o “Dia do Fico”.

Os bons ventos parecem ter beneficiado D. Pedro, pois sua decisão corroborava com a opinião pública de proprietários de terras e burocratas brasileiros e seus interesses políticos. A partir daí, cresceram os desentendimentos e a divisão entre Portugal e Brasil aumentou ainda mais; até que, em setembro de 1822, D. Pedro rejeitou um decreto final de Portugal dizendo “Independência ou Morte!”, frase que se tornou célebre na história do país, diria até imortalizada na história nacional e que nos remete a 1822, quando supostamente, às margens do Rio Ipiranga, na antiga Província de São Paulo, e cercado pela guarda imperial, Dom Pedro I proclamou o Brasil independente de Portugal. A partir daí, o jovem “prínceps” prosseguiu com a tarefa de estabelecer o novo Império do Brasil, expulsando os legalistas portugueses de seu governo, mas sem interferir na ordem socio–econômica existente.

Neste relato a seguir, o Padre Belchior Pinheira de Oliveira, confidente do Príncipe D. Pedro, descreve o momento exato da declaração de independência, logo após o príncipe ter recebido o pedido das Cortes para que retornasse:


Foi nessa altura, no lugar denominado Moinhos, que dois correios da Corte se aproximaram açodadamente. Entregaram importantes papéis ao príncipe. O príncipe mandou ler alto as cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. Eram elas: uma instrução das Cortes, uma carta de Dom João [chegadas de Portugal], outra da princesa, outra de José Bonifácio e ainda outra de Chamberlain. 

Dom Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva. Eu os apanhei e guardei. Depois, virou-se para mim e disse: ‘E agora, padre Belchior?’ E eu respondi prontamente: ‘Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e, talvez, deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.’

D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro, Carlota e outros, em direção aos animais que se achavam à beira do caminho. De repente, estacou já no meio da estrada, dizendo-me: – ‘Padre Belchior, eles o querem, eles terão a sua conta. As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal.’

Respondemos imediatamente, com entusiasmo: – ‘Viva a Liberdade! Viva o Brasil separado! Viva D. Pedro!’ O príncipe virou-se para seu ajudante de ordens e falou: – ‘Diga à minha guarda, que eu acabo de fazer a independência do Brasil. Estamos separados de Portugal. ‘O tenente Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda, onde se achavam quase todos os dragões da guarda.”

Nota: Conselheiro de Dom Pedro I, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira (imagem à esquerda) fez parte da comitiva que acompanhou o imperador na jornada de Santos a São Paulo em 7 de setembro de 1822. É dele o relato mais detalhado do que houve naquele dia: perto do riacho do Ipiranga, na região sul de São Paulo (e ainda a alguns quilômetros do centro da cidade), Dom Pedro recebe cartas em que fica sabendo do ultimato das cortes portuguesas, que exigiam sua volta a Lisboa. Foi ali que ele decidiu proclamar o Brasil um país independente. As testemunhas eram membros da sua comitiva (em sua maioria, militares) e alguns poucos moradores da região, que na época abrigava propriedades rurais. Os acontecimentos daquele deram início a um novo país.


Enquanto a Europa vivia dramáticas transformações, com a ascensão do liberalismo e o início da revolução industrial, o príncipe D. Pedro, herdeiro da coroa portuguesa, desafiou a corte de Lisboa ao proclamar a Independência do Brasil, tornando-se seu primeiro monarca.

Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon nasceu em 12 de outubro de 1798, na sala D. Quixote do palácio de Queluz, próximo à Lisboa. Era filho do futuro rei de Portugal, D. João VI, então Príncipe Regente, e da infanta Carlota Joaquina, filha de Carlos IV da Espanha. Seus primeiros mestres foram o Dr. José Monteiro da Rocha, ex-jesuíta, e frei Antônio de Nossa Senhora da Salete. Depois da mudança da família real para o Brasil, em 1807, frei Antônio de Arrábida tornou-se seu principal preceptor. O príncipe, entretanto, jamais se prendeu aos estudos e preferia a vida livre no paço de São Cristóvão e na fazenda de Santa Cruz. Em março de 1816, com a aclamação de seu pai como rei de Portugal, recebeu o título de príncipe real e herdeiro do trono. No mesmo ano casou-se com Carolina Josefa Leopoldina, arquiduquesa da Áustria.

Após a volta do rei a Portugal, em abril de 1821, D. Pedro foi nomeado regente do Reino do Brasil. No ano seguinte, foi pressionado pelas cortes de Lisboa a também regressar, mas resistiu. Em 9 de janeiro de 1822 pronunciou a frase histórica: “Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto, diga ao povo que fico!” Em abril, a popularidade do príncipe foi comprovada durante uma viagem a Minas Gerais. A versão oficial nos conta que, de lá, seguiu para São Paulo, a fim de pacificar rebeliões na província. Em 7 de setembro, indo de Santos para a capital paulista, recebeu notícias de Portugal por cartas da esposa e de seu ministro José Bonifácio. Assim tomou conhecimento de que fora rebaixado da condição de regente a mero delegado das cortes de Lisboa.


Ali mesmo, junto ao riacho do Ipiranga, o herdeiro de D. João VI teria proferido seu famoso grito de “independência ou morte”, rompendo os últimos vínculos entre Brasil e Portugal. De volta ao Rio de Janeiro, em 12 de outubro foi proclamado imperador e “defensor perpétuo do Brasil”. Em 1º de dezembro foi sagrado e coroado.

Herdeiro do trono português, D. Pedro I decidiu contrariar as restrições da constituição brasileira, que ele próprio aprovara, e assumir o poder em Lisboa como Pedro IV, 27º rei de Portugal. Forçado a abdicar em favor de sua filha primogênita, Maria da Glória, de sete anos, nomeou regente seu irmão, D. Miguel. A indecisão entre o Brasil e Portugal contribuiu para minar a popularidade e o prestígio de D. Pedro I. Ao mesmo tempo, no plano interno, fracassavam as forças brasileiras na guerra cisplatina (1825-1827). O imperador chegou a ir ao Rio Grande do Sul, a fim de participar pessoalmente da campanha, no final de 1826. A notícia da morte da imperatriz Leopoldina obrigou-o a mudar os planos e retornar ao Rio de Janeiro.

O constante declínio de seu prestígio e a crise provocada pela dissolução do gabinete levou o imperador a abdicar em favor do filho D. Pedro, em 7 de abril de 1831, e a retornar à Europa.

Com o título de duque de Bragança, D. Pedro IV de Portugal (primeiro do Brasil) assumiu a liderança da luta para restituir à filha Maria da Glória o trono português, usurpado por D. Miguel. Em 1832, nos Açores, criou uma força expedicionária para invadir Portugal e iniciou uma campanha que só obteve a vitória ao fim de três anos.

Apesar de ter reconquistado o trono português para sua filha, Dom Pedro retornou tuberculoso da campanha e morreu em 24 de setembro de 1834 no palácio de Queluz, na mesma sala onde nascera 36 anos antes. Foi sepultado no panteão de São Vicente de Fora como simples general, e não como rei. Seu coração, legado ao Porto, é ali conservado, como relíquia, na capela-mor da igreja da Lapa.

A data da Independência do Brasil é incerta. Foi convencionada como sendo o dia 7 de setembro, fixada alguns anos depois do evento histórico. Marcou o dia em que D. Pedro I, às margens do Ipiranga, em São Paulo, teria proferido seu famoso brado, chamado pelos historiadores de “o grito da Independência ou do Ipiranga”. Inicialmente, a data (7 de setembro) não era comemorada por ninguém; nem mesmo por D. Pedro I, que não deu qualquer importância ao episódio. Trata-se de um símbolo construído posteriormente, para atender às conveniências políticas da época. Até mesmo o quadro retratando o momento histórico só foi pintado décadas mais tarde por Pedro Américo, que nem era nascido naquela época.

A princípio, o marco da evento que deu a independência ao país era modestamente celebrado em outro dia e local. A comemoração ocorria em 12 de outubro, aniversário de D. Pedro I e data da sua aclamação como imperador no Campo de Santana, no centro do Rio de Janeiro.

Então sede do governo do Brasil Colônia, o Rio de Janeiro foi a primeira capital do País e berço de diversos momentos importantes da história nacional. Na Independência não seria diferente. A seguir, três locais ainda existentes, testemunhas de episódios fundamentais no processo de separação de Portugal.



Imagem: Jean-Baptiste Debret - Aclamação de D. Pedro I no Rio de Janeiro


O Paço Imperial

“Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”. Foi a reação de D. Pedro às grandes pressões que sofria. De um lado, a corte portuguesa e os deputados portugueses que exigiam seu retorno imediato a Lisboa, e queriam que o Brasil, então um Reino Unido, retornasse ao status de Colônia de Portugal. De outro, a elite local que desejava a emancipação política e econômica de Portugal e lhe entregou um abaixo-assinado com oito mil assinaturas pedindo sua permanência.

Foi no dia 9 de janeiro de 1822. Segundo as imagens oficiais do episódio D. Pedro teria ido até a sacada para confraternizar com o povo.

Com a declaração de Independência o Paço mudou de nome e de cor. De Real, passou a ser denominado Imperial. E o prédio foi pintado de amarelo, a cor do Império. Foi lá também que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão no País, em 13 de maio de 1888. Hoje é um centro cultural.


O Campo de Santana

É a maior área verde do centro do Rio de Janeiro. Até o século XVII fazia parte de um campo pantanoso. Era usado para despejo de lixo até a chegada da Família Real em 1808. Com a construção do 1º Quartel Militar da cidade, nas proximidades, o Campo de Santana se transformou em área de manobras e exercícios militares.

Por ser um grande espaço no meio do centro da cidade, era utilizado para grandes festas públicas, como a aclamação de D. Pedro I, em 12 de outubro de 1822. A cena foi imortalizada pelo pintor e desenhista francês Jean Baptiste Debret em seu livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. D. Pedro I está na varanda de um palacete, com a então Casa Da Moeda ao fundo, aceitando o título de Imperador. Figuras importantes também estão retratadas, como a Imperatriz Leopoldina, a filha Maria da Glória (posteriormente rainha Maria II, em Portugal) e José Bonifácio, então ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino do Brazil e Estrangeiros. A partir dessa época o local passou a ser conhecido como Campo da Aclamação.

Posteriormente, a mando de D. Pedro II, foi construído um parque com projeto do paisagista e botânico francês François Marie Glaziou e do engenheiro Francisco José Fialho, entre 1873 e 1880. Com traçado sinuoso, lagos e cascatas artificiais, seguia o estilo dos parques parisienses, como o Monceau e o Buttes Chaumont. Nos anos 40, a abertura da avenida Presidente Vargas, cortando o centro da cidade, cortou um pedaço do parque e do projeto original de Glaziou.

O nome atual teve origem na Igreja Nossa Senhora de Santana, construída no início do século XVIII.

Em 1813 e 1815 e, posteriormente, em 1819 e 1822, a casa da Moeda da Bahia cunhou, juntamente com a do Rio de Janeiro, moedas de cobre, destinadas às Colônias Portuguesas de “São Tomé e Príncipe” e de “Moçambique”. Por um pequeno período de tempo, a Casa da Moeda da Bahia, em Salvador, foi obrigada a paralisar suas atividades, transferindo-se para a Vila da Cachoeira, devido às lutas intensas que se travavam entre brasileiros e portugueses , pela Independência.

Com a Independência do Brasil, a Casa da Moeda da Bahia retomou os seus trabalhos de cunhar moedas tendo, no anverso, a legenda “PETRUS I DEI GRATIA CONSTITUTIONALIS IMPERATOR ET PERPETUUS BRASILIAE DEFENSOR” - (Pedro I, por Graça de Deus, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil).



Imagem: Vista do Largo do Paço (Jean Baptiste Debret). O Paço Imperial é o edifício do lado esquerdo do Largo. Ao fundo vêem-se, da esquerda para a direita, o Convento do Carmo, a Catedral e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. No centro, em primeiro plano, está o Chafariz de Mestre Valentim.



Imagem: Vista do Rio de Janeiro, tomada do Mosteiro de São Bento (Jean Baptiste Debret).



Imagem: Jean Baptiste Debret - A aclamação de D. Pedro I, em 12 de outubro de 1822. D. Pedro I no balcão de um palacete, aceitando o título de imperador. Ao fundo vê-se o prédio da Casa Da Moeda. Figuras importantes retratadas: A imperatriz Leopoldina, a filha Maria da Glória ainda criança (no futuro será a rainha Maria II de Portugal) e José Bonifácio, então ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino do Brazil e Estrangeiros, à esquerda de D. Pedro. A partir dessa época o local passou a ser conhecido como Campo da Aclamação.



Imagem: Thomas Ender - Vista do Campo de Santana em 1817 - No século XVII, era chamado de Campo da Cidade e fazia parte de um grande descampado, cuja extensão compreendia a Rua da Vala (atual Uruguaiana) até o Caminho de Capueruçu. No final daquele século, passou a se chamar Campo de São Domingos, porque a Ordem Dominicana obteve autorização para construir ali um templo. Somente em 1753 a região onde hoje existe o Campo de Santana passou a ser assim denominada porque, com o surgimento das primeiras chácaras, foi construída ali a igreja dedicada a Nossa Senhora de Santana que se pode ver nessa aquarela do artista. A partir de 1790, o vice-rei conde de Rezende, D. José Luís de Castro, iniciou ali a expansão da cidade. Pantanosa, a área se encontrava aterrada, porque a população a usava para depositar seu lixo e entulho. Em Outubro de 1818, ali ocorreram as comemorações do casamento do príncipe real D. Pedro com a arquiduquesa da Áustria, Maria Leopoldina. Foi construído um pavilhão projetado por Grandjean de Montigny, ocorrendo uma grande festa pública, com música e carros alegóricos. Nesse mesmo ano, próximo ao quartel, foi inaugurado um chafariz (abaixo), abastecido pelas águas do Rio Andaraí, com 22 bicas. Durante o dia, as lavadeiras se utilizavam de seu tanque e, nas noites de calor, a população se banhava. Nessa época, a área passou a ser conhecida popularmente como Campo das Lavadeiras.



Imagem: A Igreja N.Sª do Carmo da Antiga Sé - A igreja remonta à primitiva capela do vizinho Convento do Carmo, um dos mais antigos da cidade, fundado ainda no século XVI. Quando os carmelitas chegaram à cidade, por volta de 1590, foi-lhes doada uma capelinha dedicada a "Nossa Senhora do Ó", na então Rua Direita (atual Rua 1º de Março), perto da praia, local do atual templo. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os frades construíram um grande convento ao lado da capela, edificação ainda existente, apesar de parcialmente descaracterizada. A primitiva capela deu lugar à atual igreja a partir de 1761. As obras, a cargo do Mestre Manuel Alves Setúbal, estenderam-se por quinze anos, tendo o novo templo sido sagrado em 22 de Julho de 1770, com uma procissão solene. A talha dourada em estilo rococó do interior, de grande beleza, foi realizada por mestre Inácio Ferreira Pinto a partir de 1785. Historicamente é a igreja mais importante do País, principalmente após a chegada de D. João VI e sua corte. Como capela real, serviu à sagração de um rei, à coroação de D. Pedro I e D. Pedro II e ao casamento dos dois. A sagração de D. João VI como rei de Portugal, Brasil e Algarves foi a única de um rei europeu no continente americano (o Brasil foi a única ex-colônia sede do reino). Dona Maria II, rainha de Portugal, D. Pedro II, e a princesa Isabel foram batizados na igreja. Nesta Igreja, em 1º de Dezembro de 1822, D. Pedro I foi coroado e consagrado Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil. O pintor francês Jean Baptiste Debret imortalizou a cena em um célebre quadro, de 1828, hoje no Palácio Itamaraty, em Brasília. Na ocasião, a capela real passou à condição de imperial. A igreja ainda guarda parte dos restos mortais de Pedro Álvares Cabral.



A PEÇA DA COROAÇÃO

Para comemorar a ascensão de D. Pedro ao trono imperial, cunhou-se a moeda de ouro de 6.400 réis, conhecida como Peça da Coroação, primeira moeda do Brasil independente, hoje considerada uma das mais raras e valiosas da numismática brasileira.

Existem algumas teorias (não comprovadas) a respeito dessa cunhagem: A primeira (mais aceita) diz ter sido confeccionada de última hora, para servir de oferenda à igreja na missa realizada na ocasião da sagração e coroação do nosso primeiro imperador.



Imagem: A última "peça da coroação" vendida em leilão nos EUA por US$ 499,375.00 dólares


A segunda diz que as 64 moedas cunhadas seriam oferecidas aos 64 ilustres convidados à cerimônia, como recordação do evento. Uma terceira teoria diz que deveriam cunhar uma quantidade maior de moedas (bem mais de 64 exemplares), destinadas não somente às autoridades presentes, mas também para serem postas em circulação. A cunhagem teria sido interrompida por D.Pedro (pelos motivos expostos a seguir), quando já haviam sido fabricadas 64 moedas. Dessa forma, seja como for, ficou conhecida, desde 1908, no meio numismático, como a Peça da Coroação, onde “peça” é designação portuguesa da época para moedas de ouro com valor de 6$400 réis.

Os 64 exemplares iniciais, assinados pelo gravador Zeferino Ferrez e fabricados pela Casa da Moeda do Rio de Janeiro, não chegaram a cumprir seu objetivo primário; aparentemente, a cunhagem foi suspensa por D. Pedro I. Existem divergências no que concerne os motivos da rejeição da peça; dentre as razões mais lógicas, figuram os motivos expostos no livro “Apreciação do Medalheiro da Casa da Moeda”, de 1862:

“...diremos que a moeda de ouro cunhada para correr no novo império desagradou ao Senhor Dom Pedro I, não por nella se achar Seu Busto sob fórma heroica, e sim por faltar na legenda a palavra - CONST. - antes da - IMP. - e por estar o Mesmo Busto coroado de louro, falta e redundancia estas que, como immediatamente descobrio Aquelle Augusto Senhor, se prestavão a allusões de Seu Nobre Caracter. Que não foi por estar o retrato sob fórma heroica, que o Imperador rejeitou essa moeda, convence o seguinte documento existente na Casa, a saber, uma prova da de 4$000 gravada em 1823, que, apezar de ter o retrato vestido de farda, por lhe faltar na legenda a palavra - CONST. - foi também rejeitada...”.

Existe também um documento dirigido ao Imperador, que cita que o busto “não O teria agradado, e por isso teria sido rejeitado”.

Não acreditamos que a presença da Coroa Real no reverso esteja entre os motivos de rejeição; como já notado em 1889 por João Xavier da Motta, D. Pedro, no decreto de 18 de Setembro de 1822, desejando “remomerar” o primeiro nome dado ao país, e honrar as dezenove províncias que o constituíam, determinou que as armas reais fossem constituídas por Esfera Armilar de ouro em campo verde, atravessada por Cruz de Cristo, sendo a esfera circundada pelas dezenove estrelas postas em orla azul, firmada a Coroa Real Diamantina sobre o Escudo (...)

Apenas dois meses depois, com o Decreto de 1º de Dezembro do mesmo ano, determinou o Imperador que a Coroa Real fosse substituída pela Imperial.


O cunho de reverso - Quem ou quais foram os abridores do cunho do reverso da Peça da Coroação? Eugênio Vergara Caffarelli, Cleber Baptista Gonçalves e Luiz Marques Poliano (este citando Francisco Marques dos Santos, em palestra proferida no 1º Congresso de Numismática Brasileira, em 1940) citam Tomé Joaquim da Silva Veiga. Segundo Álvaro de Salles Oliveira,Tomé Joaquim era Abridor de Cunhos entre 1800 e 1805; em 1825, já era chefe da seção de gravuras, passando a Mestre da Oficina de Gravação antes de 1840. Outros autores dizem que o próprio Zeferino Ferrez teria aberto os dois ferros.


As 16 (dezesseis) peças conhecidas atualmente

Das 64 peças produzidas, conhecemos somente de 16 exemplares espalhados em coleções, no Brasil e no exterior. São elas:


  1. Museu de Valores do Banco Central do Brasil (Brasília-Brasil), 1926 Leilão Jacques Schulman (Amsterdã-Holanda), lote 328.

  2. Museu de Valores do Banco Central do Brasil (Brasília-Brasil).

  3. Museu do Banco do Brasil (Rio de Janeiro-Brasil).

  4. Museu do Banco Itaú (São Paulo-Brasil), ex Coleção J B Moura.

  5. Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro-Brasil), ex Biblioteca Nacional.

  6. Coleção privada/SP.

  7. Coleção privada/SP.

  8. Coleção privada/SP, ex Coleção R Pagliari. Leilão Spink (Nova Iorque-EUA), 1986.

  9. Coleção privada/SP, ex Coleção Julius Meili (Zurique-Suiça), ex Museu Nacional (Zurique-Suiça)

  10. Coleção privada do Dr. Roberto Villela Lemos Monteiro (São Paulo-Brasil),1909 Coleção Augusto de Souza Lobo (Rio de Janeiro-Brasil), 1948 Coleção Guilherme Guinle (Rio de Janeiro-Brasil), 1986 Coleção Dr. Roberto Villela Lemos Monteiro (São Paulo-Brasil), 2014 Leilão Heritage (Nova Iorque-EUA), lote 23072.

  11. Coleção privada/SPex Coleção R H Norweb (?), Leilão Spink (Nova Iorque-EUA), 1997.

  12. Coleção privada /RJ

  13. Coleção privada/BA

  14. Coleção Museu Numismático Português (Lisboa-Portugal)

  15. Coleção em Lisboa (Lisboa-Portugal)

  16. Coleção Louis E. Eliasberg (Baltimore-EUA), 1908 Coleção Alves de Araújo Ramos (BA-Brasil), 1909 (ou 1910) Leilão Jacques Schulman (Amsterdã-Holanda), lote 2048, A. A. Ramos - não vendida na época.1916 Coleção Harry F. Williams (EUA). 1918 Coleção Waldo C. Newcomer (Nova Iorque-EUA), 1935 Leilão J. C. Morgenthau (Nova Iorque-EUA), lote 129, W. C. Newcomer - J. H. Clapp, 1935 Coleção John H. Clapp (EUA), 1945 (ou 1942?) Coleção Louis E. Eliasberg (Baltimore-EUA), 2005 Leilão ANR-American Numismatic Rarities/Spink (Nova Iorque-EUA), lote 1262, L. E. Eliasberg - não vendida, 2012 Leilão Heritage (Nova Iorque-EUA), lote 23733.


A PEÇA DA COROAÇÃO NO CATÁLOGO BENTES

A apresentação da moeda de ouro, no valor de 6$400 Réis, destinada As comemorações pelo evento da coroação do primeiro imperador do Brasil, no nosso Catálogo.



Imagem: Ensaio em prata, da peça da Coroação.



Imagem: Ensaio em cobre, da peça da Coroação.




FIM


 
 
 

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