O Furto no Museu Histórico Nacional
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INTRODUÇÃO
Na madrugada entre 24 e 25 de Junho de 1937, o Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, sofreu um dos seus maiores furtos históricos. Ladrões levaram 17 barras (na verdade foram 18 barras, com apenas uma recuperada 44 anos depois do furto) e 117 moedas de ouro do acervo (a bem da verdade, foram 118 moedas não recuperadas), avaliadas na época em cerca de 218 contos de réis. O valioso lote de ourivesaria havia sido doado ao museu pelo empresário Guilherme Guinle.

O crime ocorreu em um momento político conturbado. O diretor do MHN na época, o escritor e líder integralista Gustavo Barroso, foi duramente criticado pela imprensa de oposição—como o jornal A Batalha—por estar mais envolvido com a militância política do que com a segurança das preciosidades da instituição.
A Polícia Carioca, por meio da Seção de Furtos e Roubos, conduziu as investigações e registrou o caso, mas o episódio acabou envolto em controvérsias e parte significativa dos tesouros históricos nunca retornou integralmente aos cofres do museu.
A seguir, o resultado de anos de investigação, pesquisa e estudo do assunto. Aqui fazemos apenas um resumo dos fatos que chegaram ao nosso conhecimento devido à nossa insistência em tentar desvendar esse mistério que até hoje é considerado um tabu, algo que poucos ousam comentar, no meio numismático mais conservador, colecionadores que há muito já se foram, levando consigo os pormenores de um mistério sem solução nos arquivos policiais.
PRÓLOGO
Em Março de 2013, os noticiários do Brasil e de Portugal anunciavam: “Moedas e barras de ouro das épocas colonial e imperial do Brasil em exposição no Rio de Janeiro. Uma exposição inédita exibe pela primeira vez ao público peças raras de uma valiosa coleção de numismática que fazem parte da história do Brasil colonial e imperial. A mostra “BES Numismática e o Brasil”, aberta em 21 de Março no Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, reúne 150 moedas e barras de ouro, selecionadas entre os 13 mil itens do acervo do Banco Espírito Santo, uma das mais importantes instituições financeiras portuguesas. A exposição é um dos eventos do calendário do Ano de Portugal no Brasil, que será celebrado até Junho.”
O evento foi coordenado por um amigo e numismata avançado, o Dr. José Salgado do Espírito Santo, naquela época ainda diretor da filial do BES no Rio de Janeiro. Por divesas vezes estive em seu suntuoso escritório, num prédio da Avenida Rio Branco, para conversar e fazer negócios, sempre envolvendo moedas. Foi para o Dr. Salgado que vendi um dos mais belos 37½ Réis do Rio de Janeiro que vi durante todos estes anos trabalhando serviço da numismática brasileira, única peça flor de cunho que tive em mãos. Só quis mostrá-la ao amigo, sem a intenção de vendê-la. Contudo, quando pegou em mãos a belíssima peça, recusou-se a devolvê-la. Insistiu para que eu a vendesse, dizendo que era só uma questão de discutir o preço. Acreditando que o Dr. Salgado se intimidaria diante de uma proposta absurda, multipliquei por 10 o preço que havia pagado por ela a um outro grande e saudoso amigo de Petrópolis, César Bulgarelli que a vendeu a mim por não se interessar por moedas de cobre (suas paixões eram o ouro e a prata).
Pois bem! Para minha surpresa, o homem não titubeou, não esboçou qualquer reação, não regateou e, principalmente, não tentou negociar. Ergueu-se da sua cadeira estilo D. José (muito bela, por sinal), abriu uma porta encrustada no meio de um gigantesco painel, quase imperceptível, onde se via a imagem, em preto e branco, do antigo porto de Lisboa e ali ficou por uns instantes. Sem me mover de onde me encontrava, em meio ao silêncio da grande sala que lhe servia de escritório, eu escutava o “farfalhar” da contagem das notas que o Dr. Salgado manuseava entre os dedos (provavelmente se encontrava dentro de um grande cofre). Dólares, muitos dólares, tudo em notas de 100, novinhas.

— Aqui está o que pediu por ela ... agora é minha!
Trato é trato! O Dr. Salgado sabia que eu não voltaria atrás. E assim, em menos de 30 dias, me desfiz do mais espetacular 37½ Réis, do Rio de Janeiro que vi em toda a minha vida de numismata. Nem mesmo tive a ideia, ou o devido tempo, de tirar uma foto da maravilhosa peça. Seja como for, o preço pago foi muito além da minha expectativa, uma pequena fortuna.
Resumo da ópera: O BES, considerado o maior e mais seguro banco privado português, faliu em condições misteriosas, não totalmente esclarecidas até hoje, em meio à corrupção, escândalos e calotes nos correntistas do banco. Muito do seu fantástico acervo de moedas (inclusive as moedas da ex-coleção Costa) tomou destino ignorado e parte foi parar na coleção do Banco de Portugal e o restante na coleção do Novo Banco, uma espécie de “novo BES”. O Dr. Salgado deixou sua belíssima casa de Paquetá, onde residia com a filha e retornou para Portugal.
O RIO DE JANEIRO DOS ANOS 30
Brasil, anos 30. Nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt dava início ao New Deal, o plano de recuperação econômica após a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Os contemporâneos dessa era, a denominaram a pior década do século XX, por ter iniciado com a Grande Depressão e terminado com o início de outra grande guerra.
A década de 30 descobriu o esporte, a vida ao ar livre e os banhos de sol. As famílias que dispunham de maiores recursos financeiros, procuravam lugares à beira-mar para passar períodos de férias. Seguindo as exigências das atividades esportivas, os saiotes de praia diminuíram, as cavas aumentaram e os decotes chegaram até a cintura, assim como alguns modelos de vestidos de noite.
A atmosfera do Rio de janeiro (com algumas imagens de São Paulo) dos anos 30
Mulheres com belas silhuetas, bronzeadas, se atormentavam com regimes, tentando igualar modelo de beleza da atriz Greta Garbo. Seu visual sofisticado, com sobrancelhas e pálpebras marcadas com Lápis e pó de arroz bem claro, era imitado por quase todas as mulheres cariocas e paulistas.
O cinema foi o grande referencial de disseminação dos novos costumes. Hollywood, através de estrelas como Marlene Dietrich, e de estilistas a exemplo de Edith Head e Gilbert Adrian, influenciavam ditavam os costumes da época. Novos modelos de roupas surgiram com a popularização do esporte; o short surgiu a partir do uso da bicicleta.
Os movimentos totalitários começam a eclodir também em outros países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha.
No Brasil, tem lugar mais uma Revolução, movimento que conduz o gaúcho Getúlio Vargas ao poder. Em 1932 inicia a Revolução Constitucionalista, organizada pelo estado de São Paulo, que exige a constitucionalização do novo regime. O movimento é derrotado, mas força a convocação de uma Assembleia Constituinte em 1933. Em 1934 seria promulgada a nova Constituição.
O MUSEU HISTÓRICO NACIONAL
É órgão vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), autarquia que compõe o Ministério da Cultura e está instalado em um complexo arquitetônico formado por três edifícios do período colonial brasileiro: o Forte de Santiago, a Casa do Trem e o Arsenal de Guerra.
Ao longo do século XX, o Museu HISTÓRICO Nacional progressivamente ocupou e requalificou todo o complexo arquitetônico com o objetivo de adaptá-lo aos usos e funções de uma instituição museal. Atualmente, ele está em obras, visando proporcionar maior conforto aos visitantes e melhores condições de conservação para as coleções. A reabertura do circuito expositivo está prevista para 2026.
O FURTO DAS BARRAS E MOEDAS DE OURO
Corria o ano de 1937, com a chegada do Estado Novo, tem fim política do café-com-leite. Alguns meses antes, numa fria noite de sábado para domingo, enquanto do outro lado do mundo, os americanos ainda sofriam de insônia recordando uma das suas piores crises financeiras, alguns elementos (não se sabe quantos) estavam prestes a praticar um dos maiores furtos da história do nosso país.

Ao que se sabe, aos primeiros minutos da madrugada de domingo, 25 de Junho de 1937, os ladrões irromperam o perímetro do Museu Histórico Nacional.
Presume-se, eram conhecedores de numismática, ou ainda talvez, orientados por pessoa familiarizada com o assunto. Do contrário, não teriam subtraído ao museu peças valiosíssimas de um dos seus principais acervos.
Auxiliados pelo que os jornais da época, atribuíram à falta de vigilância, os ladrões não tiveram a menor dificuldade em localizar a sala de exposição da Seção de Numismática, alvo de sua incursão sorrateira. Pelas mesmas notícias divulgadas, os larápios haviam entrado pelo telhado por onde entraram usando apetrechos necessários para serrar as grades e arrombar as vitrines dos expositores. Coisa bem planejada e de gente do ramo, segundo um dos detetives encarregado das investigações.
Na noite de sábado para domingo, 24/25 de Junho de 1937, numa incursão cinematográfica, ladrões se apoderaram de uma imensa quantidade de moedas (118 no total) e de 17 barras de ouro do acervo do Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, perfazendo só as barras, um total superior a 3 quilos. O furto nunca foi esclarecido.
O Diretor do MHN na época, Sr. Gustavo Barroso, um dos chefes do movimento integralista que se preparava para arrancar o poder das mãos do Presidente Getúlio Vargas, não se sabe bem o motivo, não deu qualquer importância ao ato criminoso, digna de nota, não contribuindo minimamente para a elucidação deste rumoroso caso. Ao que tudo indica, estavam os "integralistas" por demais empenhados em organizar, no Rio de Janeiro, o famoso "Desfile dos cinquenta mil (50.000) Camisas Verdes", movimento oportunamente abortado por Getúlio.
Por sinal, quando aconteceu o roubo, o Diretor Gustavo Barroso encontrava-se em viagem no Norte do Brasil (Ceará). Nessa ocasião, o museu estava sob a tutela do Sr. Edgar de Araújo Romero, na qualidade de Diretor Interino.

O grupo integralista que tentou derrubar o governo Vargas. Entre eles, Gustavo Barroso.
A primeira notícia dizia ''surrupiadas 117 (na verdade foram 118 moedas) Moedas de Ouro e vinte (20) barras de ouro das vitrines da Seção de Numismática'', conforme foi reportado à Polícia, mas já no dia 28.06.1937 o Dr. Romero retificou, que somente 17 (dezessete) Barras tinham sido furtadas (na verdade eram 18 barras, tendo sido uma delas recuperada 44 anos depois), como declarou em entrevista publicada no Jornal "O GLOBO" deste dia. A seguir, a relação das borras furtadas.
O chefe de polícia do Rio de Janeiro era FIlinto Muller, e as investigações correram pelas autoridades do 5º Distrito Policial. O Diretor Gustavo Barroso, nunca prestou nenhuma declaração, mesmo depois que voltou a dirigir aquele "nosocômio...." de politiqueiros daquela época.

Imagem de uma das salas de exposição do MHN, em 1937, por ocasião do furto.
Em todas as investigações policiais, houve apenas duas pessoas indiciadas....Uma delas foi Henrique Cândido Ferreira, preso em 3.8.1937, que chegou a tentar suicidar-se na cadeia, cuja mulher (Rosa Ferreira), o acusou frontalmente. Contudo, por "motivos inexplicáveis", nada se apurou, e Henrique pouco depois foi libertado e sumiu do cartaz, embora este indigitado assaltante tenha sido egresso da "Cadeia de Mar de Espanha" (MG). Funcionários e serventes do Museu foram presos, mas logo em seguida soltos, pois puderam provar sua inocência.
No início de Outubro de 1937 a polícia portenha conseguiu prender um turista que tinha visitado o Museu; Andrés Solares Abello, que pouco depois foi embarcado preso a bordo do navio "D. Pedro II", para ser então apresentado à polícia do Rio de Janeiro. No dia 20.10.1937 o navio partiu de Santos, com o preso algemado; às 22 horas o comandante mandou soltar o preso por falta de provas que o incriminassem.
Na altura da Ilha da Moela, já libertado descobriram que o preso tinha desaparecido. A hipótese foi a de que, provavelmente receoso de ser preso novamente, teria se atirado ao mar infestado de tubarões. Nunca mais se ouviu falar do turista.
Não resta a menor dúvida de que se trata de uma história mal contada. O turista desaparecido era um "estelionatário uruguaio" que, por ocasião do furto estivera no Rio de Janeiro em companhia de um amigo, Ercílio Carimando ... consta que em 29.7.1937 haviam retornado a Buenos Aires. Foi até descoberta uma carta, que Andrés Solares havia escrito à dona da Pensão, da rua Corrêa Dutra 52, no Rio de Janeiro, onde estivera hospedado, "...pedindo que ela fosse a polícia para declarar, que ele estivera acamado nos dias 24 e 25 de Junho de 1937, a madrugada do furto". Fato é que este elemento sumiu pro completo, sendo aceita a hipótese de que teria sido devorado pelos tubarões que infestavam aquela região, fato que nunca foi confirmado.
Eis a seguir a relação das 18 barras que foram furtadas do Museu, conforme relação dada à Polícia. A relação foi publicada nos jornais "O Globo" e "Diário da Noite", do Rio de Janeiro, na edição vespertina de 25 de junho de 1937, poucas horas após a descoberta do crime.

Nota: Duas barras possuíam GUIA, sendo provável que uma delas ainda esteja guardada em algum arquivo. Quanto à outra guia ver esclarecimento abaixo.
IMPORTANTE: Verificou-se, em seguida, que não haviam sido furtadas as barras relacionadas com os números 4 e 21 (a segunda com guia). Em 1981, foi recuperada a barra n° 12. Desapareceram, efetivamente, 17 (dezesseis) Barras do Patrimônio Nacional, provavelmente FUNDIDAS pelos ladrões, e perdidas para sempre. Ver as fichas catalográficas abaixo.
Os larápios haviam escolhido a dedo as barras mais pesadas. Kurt Prober relatou: ''Houve muitas inexatidões nos pesos, números, quilates, etc. constantes na relação fornecida pelo Museu à Polícia, o que felizmente se pode emendar nas respectivas fichas, pois em meus velhos guardados eu encontrei uma lista detalhada — manuscrita — do Dr. Alfredo Solano de Barros, feita posteriormente, quando já se tornara funcionário graduado do Museu, lista esta, em que, com sua habitual meticulosidade, consertou todos os erros, e ainda fazendo os seus habituais comentários pitorescos''.
A relação do Dr. Alfredo Solano de Barros é ainda mais interessante, pois nela achamos descritas também as outras barras do Museu, que não foram roubadas. Portanto conclui-se que o MHN possui hoje 9 (nove) barras de ouro em seu acervo.
Ao que tudo indica, as autoridades policiais da época nada conseguiram apurar, fazendo com que o ocorrido passasse ao esquecimento.
A BARRA DE OURO DO GRAJAÚ.
Estamos nos anos 40: Os conflitos armados que assolaram a década anterior chegam ao apogeu com o holocausto. Um ataque realizado pelo Japão em Pearl Harbor marca a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Os estadunidenses explodem seus artefatos atômicos nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando milhares de civis no Japão. Hitler comete suicídio e Mussolini é fuzilado. O mundo tem sua atenção voltada para Nuremberg onde foram julgados 24 criminosos de guerra aliados de Hitler; 13 são condenados à forca, três foram absolvidos e os demais condenados a outras penas que chegavam a prisão perpétua. Tem início a Guerra Fria, aumentando as tensões diplomáticas entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Anos dourados: A década de 50 marca a época de transição entre o período de guerras da primeira metade do século XX e o período das revoluções comportamentais e tecnológicas. Tem início a chegada da televisão em Portugal e no Brasil. A "idade de ouro" do cinema foi também a época de importantes descobertas científicas. O campeão da Copa do Mundo em 1950, pela segunda vez, é o Uruguai. Em 1954 a Alemanha Ocidental conquista a Taça do Mundo pela primeira vez. Em 1958, a Seleção Brasileira de Futebol chega ao seu primeiro título mundial. Os anos 50 foram marcados por uma crise no moralismo rígido da sociedade, expressão remanescente do Sonho Americano que não conseguia mais empolgar a juventude Americana.

A década de 60 inicia parcada por um sabor de inocência e até de lirismo nas manifestações sócioculturais. No âmbito da política é evidente o idealismo e o entusiasmo no espírito de luta. A partir de 1966, e até 1968, em um tom mais ácido, revelam-se as experiências com drogas, a perda da inocência, a revolução sexual e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos. O astronauta Buzz Aldrin caminha na Lua em 20 de julho de 1969.
Os anos 70 começam difíceis para os EUA. A crise do petróleo conduziu os americanos à recessão, ao mesmo tempo em que, economias como o Japão começavam a crescer. Surgem o smovimentos em defesa do meio ambiente, crescem as revoluções comportamentais da década anterior. Muitos a consideram a "era do individualismo". Eclodem nesta época as discotecas e o experimentalismo na música erudita.
Graças à televisão, o mundo se tornou infinitamente menos secreto. Richard Nixon, o presidente americano deposto pelo caso Watergate, foi uma "personalidade" típica das telas de televisão dos anos 70. Sua saída do governo foi festejada pela população dos Estados Unidos e o resto do mundo acompanhou todo o escândalo "de perto", através da TV.
A década de 80 foi marcante para a história do século XX, no contexto dos acontecimentos políticos e sociais: é eventualmente considerada como o fim da idade industrial e início da idade da informação, sendo chamada por muitos como a década perdida para a América Latina. Nesse perèiodo, nunca estivemos tàao próximos de uma guerra nuclear. O muro de Berlin vem abaixo com o fim da guerra fria. Os argentinos desafiam os ingleses pela posse das Malvinas. O brasil se prepara para ingressar numa nova era política com a anistia.
Rio de Janeiro, bairro do Grajaú: Quarenta e quatro (44) anos depois do fatídico dia em que ladrões invadiram o MHN, um menino descobriu no quintal de uma casa, uma das barras de ouro desaparecidas, oriunda da Casa de Fundição de Mato Grosso, datada de 1818, dando a este melodrama (uma espécie de "ópera-bufa"), um desfecho inesperado, em 1981.
Noticiaram então os jornais, que havia sido encontrada uma BARRA DE OURO (ilustrada a seguir), enterrada no fundo do quintal de uma casa da rua Visconde da Santa Isabel, nº 578, no bairro do Grajaú, do Rio de Janeiro. Era a barra 1818-M-658, que em 25.6.1937 tinha sido furtada do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. A casa pertencia ao Sr. Hassan Hadman, fazendeiro. Quem encontrou a barra foi o menino José de Almeida Ramos, que no dia 25.3.1981 brincava nos fundos da residência do Sr. Hassan, na ocasião em viagem pelo interior da Bahia. Dona Alzira, esposa do Sr. Hassan, pensando tratar-se de "coisa roubada", comunicou à polícia do 20º Distrito Policial. A própria polícia civil revolveu todo o terreno do quintal, ajudada até pela polícia militar, mas nada mais foi encontrado.

A barra 658, furtada do MHN, recuperada 44 anos depois
Foi encaminhada à polícia pela proprietária do imóvel que a restituiu ao Museu Histórico Nacional.
Declarou o dono do prédio, ainda, que não se lembrava mais de quem havia comprado o imóvel há 40 anos, ocasião em que fez obras no prédio, nada tendo sido encontrado.

Esta barra, pesando 229 gramas de ouro de quase 24 quilates, deve ter sido o pagamento que um dos participantes do furto recebeu. Este, com medo de ser descoberto, certamente preferiu enterrar a peça no quintal, provavelmente esquecendo o local exato ou mesmo tendo morrido sem nada revelar a ninguém. A casa fica perto da encosta da favela do Grajaú.
A Revista Numismática de 1937, as páginas de 246 a 250 relacionam as moedas e barras de ouro desfalcadas da preciosa coleção doada por Guilherme Guinle ao Museu Histórico Nacional (dados colhidos no Gabinete de Investigações na Seção de Furtos e Roubos da Polícia Carioca), com a respectiva avaliação total do roubo em 218.000$000 (duzentos e dezoito contos de réis).
Kurt Prober, em seu livro intitulado ''Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante do Brasil, 1754 — 1833'', publicado em 1990, em trecho à parte identificado como "capítulo E", dá, equivocadamente, a data do roubo no referido museu em 24 e 25 de Julho e não em Junho, que é o mês correto. Todavia expõe detalhes e pormenores e cita nomes de alguns envolvidos.
O DESTINO DAS MOEDAS E DAS BARRAS DE OURO
O desfecho do crime confirmou o pior cenário para o patrimônio nacional brasileiro.
Derretimento Imediato: A polícia descobriu que à exceção de uma única barra, todas as outras 17 barras de ouro e a maior parte das 117 moedas raras foram rapidamente derretidas pelos criminosos para apagar marcas oficiais e facilitar a venda no mercado clandestino.
Perda Irreparável: O valor histórico, artístico e numismático das peças da Coleção Guilherme Guinle foi extinto. O museu recuperou apenas uma fração mínima do ouro bruto descaracterizado.
Investigação Frustrada: Embora suspeitos tenham sido detidos e interrogados, o sumiço definitivo do lote gerou lendas urbanas no Rio de Janeiro sobre o envolvimento de figuras influentes no mercado ilegal de joias.
O Impacto Político na Carreira de Gustavo Barroso
O furto ocorreu em um momento crítico e foi amplamente instrumentalizado pela imprensa para atingir o diretor do museu.
Exploração da Oposição: Jornais antifascistas e liberais aproveitaram a falha de segurança para atacar a liderança de Gustavo Barroso, que na época era o principal ideólogo e chefe das milícias da Ação Integralista Brasileira (AIB) — movimento de extrema-direita inspirado no fascismo europeu.
Acusações de Negligência: A oposição alegava que ele passava mais tempo redigindo panfletos políticos e organizando desfiles integralistas do que cuidando do patrimônio do museu.
Sobrevivência Política: Apesar do desgaste público massivo, Barroso era um intelectual de prestígio e muito próximo de canais conservadores. Ele conseguiu se manter na direção do Museu Histórico Nacional (onde permaneceu até sua morte em 1959), adaptando-se politicamente ao regime autoritário que viria a seguir.
Mudanças nos Protocolos de Segurança na Era Vargas
O escândalo do roubo acelerou uma reestruturação profunda em como o governo controlava e protegia seus acervos históricos.
Centralização Estatal: Meses após o incidente, em novembro de 1937, Getúlio Vargas instituiu a ditadura do Estado Novo. No mesmo período, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), sob o comando de Rodrigo Melo Franco de Andrade. A segurança de museus passou a ser tratada como uma questão de segurança e identidade nacional.
Profissionalização do Setor: O regulamento do MHN foi reformulado. O modelo antigo de vigilância — que dependia de poucos guardas noturnos mal remunerados — foi substituído por inventários rígidos e fiscalização sistemática de salas.
Controle de Bens: A Inspetoria de Monumentos Nacionais do museu ganhou mais força para controlar o comércio de antiguidades e objetos de arte no país, tentando impedir que peças roubadas fossem facilmente liquidadas.
FIM DO ARTIGO

BENTES, PORQUE AMAMOS O QUE FAZEMOS




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