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Os limites da certificação de moedas

Oct 16
4 min read

Como dizem os italianos: "ci vuole cautela e pazienza". As graduadoras/certificadoras não tem condições de garantir a autenticidade de todas as moedas, de todos os países, cunhadas desde os tempos da antiga Lídia, passando por todas as eras, durante todos os séculos, durante todos os períodos, entre Entidades Oficiais Regulares e Entidades Expandidas, antiguidade clássica, idades média e moderna, idade contemporânea, de todos os metais, até os tempos atuais.



É humanamente impossível que um grupo de peritos, por maior que possa ser o staff da empresa, seja infalível diante de milhões de moedas de milhares de períodos diferentes. Na verdade, O modelo de negócios dessas graduadoras/certificadoras não se baseia na infalibilidade humana, mas sim em um modelo de "gerenciamento de risco financeiro e estatístico". Quando uma certificadora de grande porte falha, o sistema expõe suas fragilidades, o que acontece com mais frequência do que se imagina. O erro de uma grande certificadora, ao encapsular uma moeda falsa brasileira (real beija flor bifacial, falsificação de um erro de cunhagem muito valorizado no Brasil), ilustra o "ponto cego" das certificadoras norte-americanas: a falta de contexto local. Grandes certificadoras lidam com um volume massivo de moedas americanas e europeias clássicas que recebem diariamente para graduar. Moedas modernas de circulação, de países da América Latina, muitas vezes não recebem o mesmo escrutínio microscópico de um analista sênior.


O processo funciona da seguinte forma: se a liga metálica bate com o peso padrão, o avaliador pode focar apenas no estado de conservação (Escala Sheldon) e falhar em perceber que o exemplar foi adulterado fora da Casa da Moeda para simular um "erro raro". O episódio de um raríssimo hexadracma, por exemplo — lote certificado com valor inicial de 2 milhões de euros e retirado do leilão de uma prestigiosa casa de hastas nos EUA, após especialistas no assunto apontarem a falsificação —, toca no nível mais alto de contrafação: as "transfer dies" (cunhos de transferência), muitas vezes não detectados pelas certificadoras. Esse caso só veio à tona devido à extrema raridade da moeda. Hoje, os falsificadores usam laser e tecnologia 3D para copiar perfeitamente um cunho original de uma moeda legítima. Eles batem a moeda falsa usando prata ou ouro da mesma época (derretendo moedas antigas comuns e baratas), o que torna a autenticação muito complexa e exames laboratoriais demorados ... e que mesmo assim, falham. Quimicamente (via XRF) a moeda é dada como perfeita. Visualmente ela tem as marcas de cunhagem corretas (dos ferros conhecidos e catalogados), o que induz o certificador (aquele que manuseia a peça) em certificá-la como verdadeira. No entanto, quando uma moeda muito rara ou única vai a leilão público, centenas de especialistas do mundo inteiro analisam o catálogo online. E as comuns e não tão raras? Essas passam sem problemas, fazendo a alegria dos falsários e revendedores de bugigangas.


Imagem acima: "real bromélia", souvenir (um token sem valor) certificado como ensaio numismático, sem qualquer base científica e já declarado falso pela CMB.


Imagem acima: "real bifacial", contrafação (fake) certificado em slab, já comprovada pela CMB como falsificada. Consta que existe um certificado de autenticiadde, expedido por um comerciante sem a devida autorização para atuar no mercado como perito numismático.


COMO AS GRADUADORAS/CERTIFICADORAS SE SUSTENTAM QUANDO COMETEM ERROS?

Se elas cometem equívocos, por que o mercado continua a exigir, cada vez mais, a moeda encapsulada em slab?


A resposta é que a "garantia" não significa a "impossibilidade de errar", mas sim um "SEGURO FINANCEIRO":


  1. A CERTIFICADORA PAGA PELO ERRO: A garantia funciona como o seguro de um automóvel. Se uma moeda falsa for descoberta anos depois e comprovada a fraude, a empresa é obrigada, por contrato, a recomprar a moeda contrafeita do colecionador "pelo valor de mercado de uma autêntica", sofrendo um prejuízo que pode passar de dezenas de milhares de dólares.


  2. A ESTATÍSTICA A FAVOR DO NEGÓCIO: As certificadoras avaliam milhões de moedas por ano. Se passarem 1.000 moedas falsas em um universo de 1 milhão de peças legítimas certificadas, a margem de lucro com as taxas de envio compensa financeiramente os processos e reembolsos que elas terão que pagar pelas fraudes descobertas.


  3. ISENÇÃO PARA MOEDAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA: É importante notar que, para moedas da Antiguidade (Gregas, Romanas, Bizantinas), as certificadoras explicitamente não garantem a autenticidade no mesmo nível que atestam as modernas e as moedas americanas.


Atenção: Na linha padrão "Ancients" que avalia o grau de conservação, estilo e superfície, as certificadoras fazem ressalvas em termos de garantias financeiras totais justamente pela sofisticação das falsificações de "transfer-die".


Em resumo: o staff de uma graduadora/certificadora não é onisciente, e os erros são cicatrizes reais no mercado numismático que provam que o olho e o estudo do colecionador avançado, especializado num determinado nicho numismático, continuam sendo a última linha de defesa. O slab apenas reduz o risco do mercado geral e dá a garantia do reembolso caso a contrafação seja comprovada, mas nunca, jamais, poderá substituir o conhecimento de especialistas focados e dedicados. A sucessão de erros recentes, cometidos pelas certificadoras, mesmo com a garantia dada por elas de reembolso em caso de erro, abalaram a confiança de muitos colecionadores, que hoje demonstram um certo ceticismo diante de moedas certificadas. Dependendo da raridade e do investimento, muitos colecionadores retiram a moeda do slab e a enviam a laboratórios especializados, pagando pela emissão de certificado para em seguida a encapsularem novamente, com a certeza quase que absoluta de que pagaram caro sim, mas por uma peça genuína.


NOTA: De forma alguma estamos afirmando que graduar/certificar moedas seja perda de tempo. Muito pelo contrário, como já citado anteriormente, a estatística é favorável ao processo, e também porque caso uma moeda falsa permaneça em seu slab por 15 ou 20 anos, por exemplo, e a um trato for descoberta como falsa, o proprietário não amarga qualquer prejuízo; muito pelo contrário pois lhe é reembolsado o valor de uma moeda idêntica e original, em valores atualizados, obviamente depois da constatação e comprovação de que a peça encapsulada em slab seja falsa.


FIM DO ARTIGO


 
 
 

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