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A Moeda Universal

O protagonismo político, a projeção histórica e o prestígio da Espanha como grande potência européia do século XVI, alcançaram o seu apogeu durante os reinados de Carlos I e de Filipe II; circunstâncias mais do que favoráveis para o nascimento da divisa internacional espanhola, o Real de a Ocho, a moeda de prata mais acreditada e demandada do seu tempo.




Os 8 Reales de prata da Monarquia Espanhola foi, por mais de três séculos, a moeda que pela primeira vez da história marcou de forma indelével a economia mundial, servindo como divisa obrigatória de sua época, participando ativamente no comércio dos cinco continentes.

Em realidade foi a divisa internacional indiscutível, ao mesmo tempo servindo de medida de referência obrigatória para o comércio em todo o mundo, incluindo o território que hoje corresponde ao Brasil. Não somente serviu à recuperação demográfica e econômica do ocidente europeu, mas também favoreceu a introdução do Mercantilismo, no século XVI.

Quando se trata de numismática espanhola, é imediata a associação à cunhagem dos 8 Reales. O numismatógrafo Carlo Cipolla [1] considera “um verdadeiro mistério” que o Real de a ocho — segundo suas próprias palavras “uma moeda tão feia, tão mal cunhada, tão facilmente cerceável e, para piorar, indigna de confiança quanto ao seu valor intrínseco — pudesse ser tão apreciada e aceita em todos os rincões do planeta”.

A única explicação para esse mistério seria a excepcional abundância desta moeda que, apesar de tantas “falhas”, por assim dizer, continuou a ser cunhada, prosseguindo por décadas — e por que não dizer, por séculos a fio? —, dominando o mundo conhecido e as tratativas comerciais da época, haja vista que retirá-la de circulação teria causado um colapso gigantesco na atividade mercantil e nas práticas comerciais, em todo o planeta.

Permitimo–nos, destarte — sem a pretensão ou intenção de desqualificar essa “linha de pensamento” — contestar essas opiniões, saindo em defesa do Real de a Ocho, iniciando pelo seu aspecto estético, belo, harmonioso, e que agrada aos olhos. A peça de “escudo e cruz”, que foi cunhada sem interrupção a partir de meados do século XVI, estendendo-se até 1724, é realmente bela, principalmente se prestarmos a atenção aos exemplares bem cunhados e preservados, especialmente aqueles da Casa de Segóvia, que foram cortados em moinhos movidos pela força hidráulica.

[1] Cipolla, C. M.: La odisea de la plata española, Barcelona, 1999, p. 117.


A peça denominada “columnario” [2], que substituiu a moeda anterior e foi fabricada até 1771, foi incluída, pela ciência que estuda as moedas, entre os dez (10) desenhos numismáticos mais belos da história mundial.

É inegável afirmar que a imensa maioria dos Reales de a Ocho, cunhados a martelo — técnica já considerada antiquada ao final do século XVI — foram fabricados com pressa e sem o devido zelo. As moedas apresentam-se descentralizadas, muitas com a cunhagem rasa, devido à falta da justa pressão — nesse caso aplicada de forma desigual — ou pelo uso de matrizes desgastadas ou mal esculpidas. Somem-se aos problemas já mencionados, as limitações técnicas dos funcionários da Casa da Moeda, a má fé, o descaso e a falta de zelo e capricho. Apesar de possuir peso determinado, o tamanho das peças (por não ser exigência) não era devidamente observado, fazendo oscilar notavelmente o diâmetro e a espessura, já que a força e a precisão no uso do martelo não eram uma constante.

O peso, contudo, contava com um “melhor” controle de qualidade, já que as moedas, depois de prontas, eram pesadas e devidamente aparadas com tesourões, caso fosse detectado algum excesso. Essa prática fazia com que algumas moedas postas em circulação, não tivessem propriamente a forma circular, o que seria o desejado em uma moeda que até 1724 não contava com serrilha e cordão, facilitando o cerceio e os eventuais cortes de ajuste de peso.

Uma vez colocadas em circulação, tornaram-se abundantes e bem aceitas no comércio. Com o passar do tempo, a falta de serrilha e cordão trouxe sérios problemas à coroa. O cerceio passou a ser prática comum — a raspagem dos bordos, para utilizar a prata cerceada e ainda o que sobrou da moeda, valendo-se do seu valor facial (extrínseco), foi um hábito que se difundiu por todo o mundo — dando muita dor de cabeça aos soberanos e prejuízos aos “cofres” dos seus domínios.

Quando o cerceio era excessivo, naturalmente a moeda era rejeitada. Mesmo assim, devido ao seu conteúdo de metal fino, ainda restava a possibilidade de ser vendida a peso, ou como um objeto de valor, garantido pelo que restou visível da moeda original. Em alguns casos foi recortada, levando-se em conta razões de foro íntimo e apelativo sentimental [3]; algumas vezes na forma de um coração que alguém manteve como lembrança, para posteriormente retornar em circulação após a morte da pessoa que a guardava como jóia, ou por qualquer outro motivo que pudesse navegar no imaginário da população que lidava com essas moedas no seu dia-a-dia.


[2] As moedas de Columnario foram cunhados de 1732 a 1773, em numerosas Casas da Moeda espanholas, em todas as Américas. Na segunda metade do século XVIII tornou-se uma verdadeira “moeda mundial”, sendo amplamente utilizada na Europa, nos Estados Unidos (onde tinha curso legal) e no Extremo Oriente. Tanto o velho como o novo mundo estão representados no reverso da moeda, coroados entre os dois pilares de Hércules com as legendas “VTRAQUE VNUM” (ambos são um). No anverso, as armas de Leão e Castela são exibidas sob a coroa espanhola com o dístico “8” à direita; à esquerda, as iniciais VJ, dos ensaiadores Victoriano del Valle e Juan de Chávez.

De todos os colunários cunhados, os fabricados em Santa Fé de Bogotá, Nueva Granada (hoje Colômbia), na Casa da Moeda do Nuevo Reino, estão entre as mais raras e, provavelmente, entre as mais desejadas pelos numismatas de todo o mundo. As moedas só foram cunhadas em 1760 (data emendada de 1759), 1762 e 1770. São extremamente raras, com pouquíssimos exemplares conhecidos.

A existência do colunário Nuevo Reino de 1770 era desconhecida até o ano de 2006, quando exatamente quatorze dessas moedas foram encontradas nas antigas fundações da igreja Nuestra Señora del Pilar, em Bogotá. A igreja, que também foi convento e escola para meninas, existiu desde a década de 1770 e até 1948, quando foi incendiada durante grandes tumultos em Bogotá. Em seguida, acabou sendo demolida e a área transformada em estacionamento. Há alguns anos, durante as obras de construção de um novo prédio, as equipes que trabalhavam no estacionamento, encontraram um pequeno grupo de moedas nas antigas fundações da Igreja, incluindo os quatorze colunários Nuevo Reino de 1770.

[3] Gil Farrés, O.: Historia de la moneda española, Madrid, 1976, y Mateu Llopis, F.: La moneda española, Barcelona, 1946.

Imagem acima: Felipe V de Espanha, 8 Reales cunhado na Casa da Moeda de Potosi. Moeda em forma de coração, elemento recorrente à crença religiosa na América espanhola. Peso: 26,67 gramas.


Imagem acima: Casa da Moeda do México, Carlos e Joana (mãe do monarca), 8 Reales (1536 – 1538), o primeiro “dólar” das Américas. Devido ao desgaste e aos métodos de cunhagem precários da época, tanto o diâmetro quanto o peso do exemplar acima, diferem do oficial: 36,5 mm, 27,13 gramas, para o 8 Reales da figura.

Anverso: KAROLVS (AKROLVVS, com V duplo) ET IOHANA (IOhAIA): D ... (Carlos e Joana, pela Graça de Deus ...). Legendas de anverso, e a continuação no reverso, entremeadas por ornamentos. Escudo coroado, com torres no primeiro e quarto quadrantes (representando Castela), e leões no segundo e terceiro (representando Leão), romã na parte inferior (representando Granada); letra “M”, da Casa da Moeda do México, à direita e à esquerda do escudo, tendo dois pontos, um acima e outro abaixo, tudo dentro de um colar de pérolas.

Reverso: Continuação da legenda de anverso, ... HISPANIE ET ​​INDIARVM RE, (... Rei e Rainha da Espanha e das Índias). Dois pilares, representando as Colunas de Hércules, encimados por coroa, tendo ao centro um estandarte romboidal contendo o dístico PLVS (PLVS ULTRA); R abaixo (do gravador Francisco del Rincón).

Algumas das letras são góticas, incluindo a marca “M”, da Casa da Moeda do México; contudo, a maior parte da legenda e composta pelas “novas” letras latinas, que se tornaram a norma para a “Série Tardia” que se seguiu (1542-1572).

Essas primeiras moedas do México são bastante belas, com o uso criterioso de punções habilmente elaboradas em simetria artística, cunhadas sobre discos largos, redondos e de espessura uniforme. Apesar dos problemas enfrentados no processo de cunhagem dos grandes 8 Reales, este exemplar apresenta pouca duplicação (observar o “V” duplo, na legenda, em AKROLVVS) e razoável centralização. Ao contrário dos outros dois exemplares conhecidos, mostra apenas um não comprometedor efeito da longa exposição à água salgada, localizado na posição entre 2 e 3 horas na orla de reverso.

São também os primeiros 8 Reales da Espanha ou do Novo Mundo. A moeda da imagem tem um tom cinza ardósia uniforme, disco quase totalmente redondo, 27,18 gramas de peso, com legendas completas e encontra-se em estado de conservação muito agradável em todos os seus aspectos.


Os defeitos de cunhagem são facilmente explicados: A prata começou a chegar em Sevilha em barras pesadas, fabricadas nas Casas de Fundição hispano-americanas, localizadas nas regiões mineradoras. Nessas “fábricas”, os oficiais reais preocupavam-se em marcar as barras com as armas de el–Rey, como prova de que haviam pago o Quinto ou imposto sobre a produção de metais preciosos; a Lei do metal se fazia constar em cada barra, mediante incisões.

Assim que a frota chegava, e as barras eram entregues aos seus destinatários, estes as conduziam às Casas da Moeda para que fossem devidamente laminadas e procedessem à cunhagem das peças destinadas à circulação em todo o mundo.

Gozavam de preferência aquelas destinadas a el–Rey, e que normalmente eram leiloadas nas “Casas de Contratação”, sendo adquiridas por companhias intermediárias de compradores de ouro e prata — ofício um pouco ambíguo, especulativo e mal definido — que se encarregavam de refinar o metal para, em seguida, consigná-lo à Casa da Moeda, de acordo e com a exatidão do estabelecido na Lei monetária, dando início, desta forma, às ulteriores tarefas.

A importante Casa da Moeda de Sevilha logo se tornaria a maior do mundo. Após a chegada de cada frota, essa prestigiosa instituição sevilhana expandia o seu número de funcionários, trabalhando a um ritmo frenético, a fim de minimizar o tempo de entrega aos seus clientes.


Nota: A primeira Casa da Moeda, fundada na América, foi a Mexicana, inaugurada em 1536 por Decreto Real de 1535. Estabeleceu-se, temporariamente, em uma propriedade do próprio Hernán Cortés, permanecendo no mesmo local por décadas, até ser transferida para um edifício próprio, construído para sediá-la.

As primeiras emissões foram realizadas pelo insígne ensaiador Francisco de Rincón. Além desses 8 Reales, foram fabricados outros valores, em prata, hoje cosideradas muito raros: 1/4 real , 1/2 real , 1 real e 3 reais. Nestas primeiras séries foram incluídas as colunas de Hércules e o lema “PLUS”, embora o mar ainda não tenha sido introduzido sob as colunas.

A documentação deixada por Francisco Tello de Sandoval (eclesiástico e estadista eapanhol), nos diz que em 1538 foram cunhados alguns exemplares de 8 Reales, mas que a emissão foi rapidamente cancelada devido à dificuldade técnica envolvida na cunhagem dessas moedas.

Até muito recentemente não se conhecia nenhum exemplar, até que foram encontrados três deles, nos destroços do “Velocino de Ouro” – apelido dado a um navio espanhol que naufragou na década de 1550 –, resgatados na década de 90. Essas três peças encontram-se, atualmente, em coleções privadas.

Desde a redescoberta de certos documentos de arquivo, pelo Dr. Alberto Pradeau, em 1947, sabe-se que a antiga Casa da Moeda mexicana fabricou 8 Reales de prata do tamanho de um dólar, em 1538, dois anos depois de a Casa da Moeda ter começado a operar. Esses documentos eram as transcrições de uma investigação de Francisco Tello de Sandoval, realizada em 1545, ordenada pelo Rei, em resposta às acusações de fraude de Hernan Cortés, conquistador espanhol do México.

A investigação expôs relatos de testemunhas oculares de vários funcionários da Casa da Moeda (incluindo o relato do primeiro ensaiador, Francisco del Rincón) de que moedas de 8 Reales foram fabricadas durante um curto período de tempo, em 1538, até que foi determinado que cessassem a fabricação dessas moedas, por serem muito difíceis de fabricar adequadamente nas condições existentes.

Sem um único exemplar que comprovasse a existência desses 8 Reales, acreditava-se que todos os exemplares fabricados haviam desaparecido para sempre.

Na década de 1990, porém, num naufrágio espanhol, afundado por volta de 1550 no Caribe, foram encontrados três exemplares em um baú com cerca de 2.000 moedas de prata da antiga Casa da Moeda mexicana. O primeiro exemplar a ser anunciado publicamente foi promovido como “o primeiro dólar das Américas”, pelos negociantes Ira e Larry Goldberg. Essa moeda acabou se tornando a principal peça de uma coleção privada, exibida com destaque pelos Goldbergs na World Money Fair, em São Francisco.

Devido ao fato da moeda ter um peso ligeiramente menor (atribuído à corrosão) e de espessura inferior (possivel evidência de algumas das dificuldades mencionadas pelos trabalhadores da Casa da Moeda, durante a investigação de 1545), e por ser o único espécime conhecido pelo público, alguns pesquisadores questionaram discretamente a sua autenticidade.

Essa opinião seria indubitavelmente contestada com o exame do segundo exemplar, o primeiro a ser colocado à venda em hasta pública. O paradeiro atual do terceiro espécime, moeda intermediária dos três em qualidade e conservação, é atualmente desconhecido. O desenho é típico das emissões da “Série Antiga” de Carlos e Joana no México, de 1536 a 1542.

No reverso, vêem-se os emblemáticos Pilares de Hércules, antigo nome do Estreito de Gibraltar, que liga o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, com PLVS em painel dentro de uma bandeira em formato romboidal, que significa PLVS VLTRA (“mais além”, em lugar da antiga expressão “NE PLUS ULTRA”, com a letra R, do ensaiador Rincón, abaixo dos pilares. Acima das colunas (pilares), onde aparece uma denominação numérica nas moedas menores, vê-se uma pequena cruz grega, como marcador do valor 8 Reales.


Ansiosos em dispor do seu dinheiro para saldar dívidas ou para reinvesti-lo a fim de obter mais lucros, a Casa sevilhana se empenhava ao máximo em não fazê–los esperar, haja vista que, devido a uma possível demora na entrega, poderiam mudar de idéia, dirigindo-se a uma das outras sete (7) Casas de cunhagem que existiam em Castela, mesmo afrontando o alto custo e os riscos inerentes ao transporte da prata [4] na região, que já contava com as ações de delinquentes. Tamanha era a pressa em realizar os trabalhos que por muito tempo a Casa da Moeda de Sevilha renunciou à todas as inovações técnicas, a fim de não suspender — por breve tempo que fosse, necessário à instalação de novas máquinas — sua intensa atividade mercantil [5].

A criação de novas Casas da Moeda, na América espanhola, não iria melhorar a situação. A imensa maioria das duzentas (200) cidades hispano–americanas ali fundadas, durante ou após a conquista, prosperaram com surpreendente rapidez.

Sendo, cada uma delas, um centro econômico tão diversificado e auto–suficiente o quanto bastava — um meio social em que raças e culturas se integravam sob o molde institucional e cultural da coroa espanhola, célula de organização política que assumía amplos poderes de auto–governo, laboratório onde se operou a revolução ecológica que pressupunha a aclimatação de toda a fauna e flora doméstica da Europa, e “pátria natural” daqueles que fundaram, habitaram e nela nasceram — todas essas cidades, em breve, se constituiriam, devido à sua enorme dispersão geográfica e à velocidade e sucesso com que teve lugar, na maior e mais criativa empresa conhecida até então. A prova do seu vigor e prosperidade seria, sob o aspecto econômico, a prontidão e eficácia com que desenvolveram uma atividade metalúrgica mineira, visando a obtenção de uma mercadoria de exportação que lhes permitiria comprar indústrias européias — principalmente as de produção metálica — que eles ainda não se encontravam em condições de produzir .

Assim que surgiram os primeiros sintomas de exaustão, tanto da produção de ouro de aluvião quanto do volume obtido com o saque da conquista, teve início a exploração das primeiras minas de prata. Antes que o desmatamento fizesse subir os preços da grande quantidade de combustível exigida por cada uma das oficinas nos processos de metalurgia argentífera, um estudioso espanhol transformou em processo industrial rentável um novo método a frio, por amalgamação do minério de prata com mercúrio, conhecido dos europeus, mas apenas em pequenos testes laboratoriais.

Durante os primeiros 20 anos, os espanhóis não encontraram qualquer dificuldade em extrair a prata que praticamente se apresentava como mineral puro. Mas após duas décadas de exploração, o que parecia quase impossível, aconteceu: A prata em grandes veios chegou ao fim. O que restou foi uma imensa quantidade de metal encastrado na rocha, criando um problema para os espanhóis: o minério que restou era de baixa qualidade, impossibilitando a extração da prata através do calor da fusão.

Os espanhóis nunca haviam visto o minério de prata como agora se apresentava. A técnica que usavam para extrair o metal do minério não funcionava; a fusão fazia o metal evaporar. A riqueza da América estava aprisionada na rocha.

Em 1553, um homem que iria abrir definitivamente as portas da riqueza do mundo, chegou em Potosi. Seu nome é Bartolomeu de Medina; empresário inteligente, experimentador criativo e inovador, Medina, um próspero comerciante de tecidos na Espanha, deixou sua terra natal, percorrendo 8.000 quilômetros com o firme propósito de fazer fortuna em Potosi. Suas geniais idéias e sua singular criatividade fizeram nascer novas cidades e novos impérios, criando novos estilos de vida, que foram os responsáveis por novos conflitos e a criação de magníficos templos como o Taj Mahal.


[4] Torres, J.: Las casas de moneda en el reino de Castilla, en Boletín de la Real Academia de la Historia (Madrid), 199 (2002).

[5] Pérez Sindreu, F. de P.: La casa de moneda de Sevilla. Su historia, Sevilla, 1992. / Espiau Eizaguirre, M.: La casa de moneda de Sevilla y su entorno. Historia y morfología, Sevilla, 1991.



Num primeiro momento, a técnica utilizada por Medina foi a de misturar o mercúrio ao cascalho, a fim de isolar as impurezas, separando-as da prata. Todavia o método que funcionava perfeitamente na Europa, mostrou-se ineficaz em Potosi. O minério extraído nos Andes era diferente da rocha argentífera européia por conter menos cobre, essencial para que a fórmula de Medina funcionasse.

A essa altura, Bartolomeu de Medina era “um empresário diante de um problema”, e como tal adotou a postura do “homem de negócios” ou seja: procurar uma solução até encontrá-la.

Finalmente, num golpe de sorte, encontrou o ingrediente que faltava em sua fórmula, o sulfato de cobre, usado na região para tingir o couro. Reagindo com o mercúrio, o catalisador que faltava foi decisivo para o sucesso de Medina. A chave que iria transformar as Minas de Potosi na maior, mais rica e abundante fonte de prata que a humanidade jamais havia visto, se encontrava nas mãos e no espírito desse intrépido empreendedor, que possibilitou que as minas de prata da América do Sul fossem enormemente produtivas.

Assim que descobriram um filão de cinábrio [6] em Huancavelica [7], teve início a exploração, para minimizar os custos de transporte de mercúrio que até então chegavam da Península, onde Castela possuía a mais antiga e rica mina em Almadén. Os castelhanos tiveram sorte com a descoberta, muitas vezes casual, de ricas minas, mas sempre empenhados num constante e conjunto esforço que visava a dar prosseguimento à produção monetária.

A procura ou exploração sistemática em busca de novos filões, a colocação e drenagem das minas, a escolha do procedimento metalúrgico mais rentável para cada minério, a organização difícil e dispendiosa do transporte do metal dos locais de produção, distantes para os portos de embarque para a Europa, criaram enormes problemas financeiros e técnicos, de solução muito difícil, mas que foram resolvidos satisfatoriamente em menos de quarenta anos, a partir de 1530.

Em tais condições, não é de se admirar que as cidades indianas solicitassem, há muito tempo, dispor de moeda cunhada, que a príncípio lhes foi enviada partindo de Sevilha, todavia nunca em quantidade suficiente.

O desenvolvimento econômico da Cidade do México foi tão rápido que, no ano de 1525, as súplicas para que ali fossem cunhadas moedas para facilitar o comércio e estimular a produção eram quase angustiantes.


O cabildo [8] se viu obrigado a improvisar uma pseudo-moeda, constituída por peças de metal precioso onde eram gravados seu peso e Lei, registrados como débil garantia de seu valor. Dez anos depois, quando a cidade já era o centro de um sistema radial de estradas que asseguravam o fornecimento de metais amoedáveis, chegava à capital o primeiro vice-rei da Nova Espanha, que havia sido tesoureiro da Casa da Moeda de Granada. Competente administrador, Antonio de Mendoza, Marquês de Mondéjar, Conde de Tendilla e Vice-rei do Peru, monitorou os trabalhos de instalação da Casa da Moeda do México [9]. Como é natural, aplicou-se o sistema monetário castelhano, estabelecido em 1497 pelos Reis Católicos, baseado na prata, tendo o Real como uma unidade, uma peça de 3,40 gramas de peso, título de 930,556 milésimos e valor de 34 maravedis.


[6] Cinábrio, cinabre ou cinabarita (sulfeto de mercúrio (II) (HgS), vermelhão nativo) é o nome usado para o sulfeto de mercúrio (II) (HgS), o minério de mercúrio comum. O nome vem do grego, usado por Teofrasto e provavelmente foi aplicado a muitas substâncias diferentes. É geralmente encontrado em uma forma massiva, granular ou terrosa, é de cor vermelha viva a cor de tijolo. Foi extraído pelo Império Romano por seu conteúdo e é o principal minério de mercúrio ao longo dos séculos. Algumas minas usadas pelo romanos continuam em operação até hoje. Geralmente é encontrado como um mineral vein-filling, associado com atividade vulcânica e fontes termais alcalinas.

[7] Huancavelica é uma província do Peru localizada na região de Huancavelica, cuja capital leva o mesmo nome.

[8] Um cabildo, ou ayuntamiento, era um colegiado colonial espanhol che governava uma cidade ou província. Eram nomeados ou eleitos, considerados os representantes dos proprietários de terras e de todos os núcleos familiares (vecinos). O cabildo colonial era essencialmente o mesmo que se desenvolveu na Castela medieval.

[9] Zavala, S.: Fundación y primeros años, en Anes, G. y Céspedes, G. (directores): Las casas de moneda en los reinos de Indias, vol. 2, Madrid,1997, página 21.


Foi autorizada a cunhagem na Casa da Moeda do México, mas somente de moedas de prata, com os valores de 4; 2 e 1 real, além de ½ real e ¼ de real (cuartillo) [10], assim como a moeda fracionária de cobre que não teve muita aceitação, e que nem mesmo a Casa da Moeda se interessou em fabricá-la, fazendo com que desaparecesse , por completo, em pouco tempo.

Esta é a prova, entre as muitas existentes, de que a moeda produzida na América foi destinada exclusivamente ao mercado interno, sem nunca se pensar que poderia ser convertida em um artigo de exportação; mas que não poderia ser proibido enviá-la para a Castela peninsular, já que se tratava de moeda de curso legal, com o mesmo valor, lei e peso, em ambos os lados do Atlântico.

Em 1537, foi permitida a cunhagem de moedas de 8 reais, no México. Contudo, em breve, “essas cunhagens foram suspensas por serem muito laboriosas e sua laminação deixar muitas cisalhas (aparas do metal)” [11]. Isso destaca as duas principais dificuldades experimentadas por todas as Casas de Moeda, em seus primeiros dias: falta de pessoal competente — que encontrou melhores oportunidades em metalurgia, fabricação de talheres e ourivesaria — e o alto custo do transporte de longa distância, que fazia subir o preço da lenha e do carvão vegetal, indispensáveis como combustível.

A fim de dar solução aos problemas e inconvenientes criados pelo aumento de despesas, e dos preços de insumos na América espanhola, aumentaram a força de trabalho e, consequentemente, a cunhagem, triplicando a quantidade de fabricação de dinheiro usado na península, a fim de tornar mais atrativo o trabalho nas diversas Casas de Moeda.

Com a produção aumentada, a ponto de suprir a necessidade de moeda em circulação, algum tempo depois — quando já havia pessoal especializado suficiente — a cunhagem na península foi reduzida praticamente à metade. A diferença, que até então era cobrada, foi destinada em benefício de El-Rey, como sendo o “direito não recebido” à senhoriagem. Seguindo o exemplo do vice-reino de Nova Espanha, e pelas mesmas razões, foi estabelecida no Peru, 30 anos depois, uma Casa da Moeda em Lima.

A produção permaneceu, dessa forma, sob o olhar vigilante do vice-rei, mas muito longe da “bacia minerária”, então explorada. O abastecimento de prata exigia um transporte muito longo, que gerava de imediato o contrabando de mercadorias valiosas, sempre bem remuneradas por ourives, ourivesarias e particulares envolvidos no comércio de ouro e prata. Quando, para evitar a criminalidade, o tráfego de metais preciosos se submeteu a permissões e controles, a prata deixou de chegar à Lima, causando o fechamento da Casa da Moeda.

A Casa da Moeda de Lima foi reaberta mais de um século depois, oferecendo aos compradores de prata, privilégios e benefícios econômicos — alguns até mesmo ilegais, até então — inclusive recebendo prata sem indagar sobre a sua origem ou acerca da sua situação fiscal.

Em 1575, dez anos depois da Casa da Moeda de Lima, outra iniciou sesu trabalhos de cunagem, desta vez em Potosi, que nunca deixaria de cunhar, já que o seu abastecimento era assegurado pela proximidade das minas mais ricas exploradas naquela época. Por outro lado, as autoridades com poder e prestígio suficientes para exercitar o controle efetivo da produção e fiscalização, residiam muito longe das instalações, como logo seria demonstrado, facilitando os negócios esconsos e a produção clandestina [12].


[10] O cuartillo era uma moeda de vellón (cobre com prata) cunhada nos tempos de Enrique IV de Castela, com o valor de 1/4 de real.

[11] Alessio Robles Cuevas, V.: Las monedas novohispanas, vol. 2, página 183.

[12] Una historia concisa y documentada de las cecas limeña y potosina, por Dargent Chamot, E., vol. 2.


O fluxo de prata, no comércio global, decolou de um dia para outro. Com mais de 220 toneladas de prata extraídas a cada ano, Potosi passou a ser o sítio mais produtivo de riqueza do planeta.

Todos os anos saíam, de três gigantescos fornos, a prata que iria servir para cunhar mais de 2,5 milhões de moedas de prata; pesos de ocho (oito reales), a primeira moeda universal que se tem conhecimento no mundo, formando uma gigantesca rede comercial global.

Naquela época, uma única moeda de 8 Reales (peso de ocho ou real de a ocho), valia o equivalente a 64 euros dos tempos atuais. O Real de a Ocho passou a ter valor legal em praticamente todo o planeta, até a metade do século XVIII.

O resultado foi extraordinário; toda a economia do planeta foi fortemente influenciada quando a prata deixou a América, atravessando o Pacífico até a Europa, provocando uma enorme onda de prosperidade. É o início do que hoje conhecemos com o nome de globalização.

Ao longo de quase três séculos, as frotas espanholas transportaram 50.000 toneladas de prata para fora das Américas, criando um novo comércio atlântico.

Em pouco tempo, foi introduzido no mercado mundial uma grande quantidade de prata que transformou todo comércio europeu, dando à economia uma expansão e visão totalmente novas, sem precedentes na história da humanidade. Surgem novas rotas continentais: Sevilha, Lisboa, Londres.

Os símbolos contidos na moeda espanhola inspiraram um outro, que no futuro passaria a ser conhecido como uma das mais potentes marcas do poder da economia no mundo globalizado, o cifrão ($), o marcador de moeda de alguns países da América do Norte (EUA) e do Sul: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Suriname e Uruguai e da Europa, particularmente em Portugal, onde o símbolo está fortemente associado ao contexto monetário/financeiro.

Na Catedral mais antiga das américas, pode-se ver o símbolo que inspirou um dos mais potentes sinais (o cifrão) da atual economia: os pilares de Hércules.

Mandada construir por Carlos I – Sacro Imperador Romano-Germânico e da Itália, Carlos V a partir de 1519 e Rei da Espanha como Carlos I, de 1516 até sua abdicação em favor de seu irmão mais novo, Fernando I – localiza-se na cidade de Santo Domingo, capital da República Dominicana, primeira cidade fundada no continente. Sua construção foi realizada entre 1521 e 1537, tendo sido consagrada em 1541. Misturando os estilos gótico e plateresco (Renascença espanhola) é o edifício mais importante da Cidade Colonial de Santo Domingo, reconhecida como patrimônio mundial pela Unesco, em 1990.

O resultado foi extraordinário; toda a economia do planeta foi fortemente influenciada quando a prata deixou a América, atravessando o Pacífico até a Europa, provocando uma enorme onda de prosperidade. É o início do que hoje conhecemos com o nome de globalização.

Ao longo de quase três séculos, as frotas espanholas transportaram 50.000 toneladas de prata para fora das Américas, criando um novo comércio atlântico.

Em pouco tempo, foi introduzido no mercado mundial uma grande quantidade de prata que transformou todo comércio europeu, dando à economia uma expansão e visão totalmente novas, sem precedentes na história da humanidade. Surgem novas rotas continentais: Sevilha, Lisboa, Londres.


FIM



 
 
 

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